quinta-feira, 15 de junho de 2017

O Corpo de Deus e os Rude Boys





Até 31 de Maio de 1998 a questão do corpo de Deus era-me tão longínqua, indistinta e diáfana, como o era à maioria das almas que eu conhecia. Foi por ocasião do meu crisma, durante a celebração, que o Sr. D. João Alves me remeteu para o foco na questão ao interrogar uma jovem alma, minha camarada de “infortúnio”.


No ano de 325, o jovem diácono Atanásio dirigiu-se à povoação de Niceia, actual Iznik, na Turquia asiática. Eloquente e bravo, determinado, estaria provavelmente longe de vislumbrar a extraordinária civilização que se ergueria sobre a sua posição, o Ocidente.

Desde o Pentecostes, algures entre 29 e 33 DC, que entre os convertidos se formaram seitas heréticas, sobretudo durante os primeiros 3 séculos, versando sobre a real natureza de Cristo. A sua génese assentava na natural ânsia humana de racionalizar o incompreensível, de exorcizar o mistério, de rejeitar tudo o que está para além da razão humana. A maioria dos heresiarcas tiveram em comum a vaidade e a ambição, um certo autismo espiritual, i.e., uma crença desmedida nas suas próprias ideias, um racionalismo lógico aliado a grande eloquência. Arius, um clérigo africano líder da nova seita ariana, não fugia ao estereótipo. O arianismo defendia que Cristo não era Deus, Ele mesmo. Cristo teria um lugar privilegiado, teria sido criado antes de todas as criaturas, o mundo poderia mesmo ter sido criado por ou através dele, a sua substância até poderia ser divina, mas…não era Deus!


Mas o que interessa uma questão tão aparentemente espúria à nossa vida actual, ao dia a dia em que temos que ganhar a vida e sobreviver aos impostos do Estado? Para compreender isso teremos que constatar que civilização foi construída sobre essa ideia: o maometanismo!


Como dizia Chesterton, o homem não é apenas economia, ele também não suporta viver fora da verdade, da sabedoria. O homem não vive só de pão, mas também da palavra, do verbo. E as grandes civilizações decaem por esquecer coisas óbvias. Os grandes inimigos do ocidente actual não são estes muçulmanos que nos ameaçam com bombas ou com facas. O ocidente é muito mais desenvolvido, rico, multiforme e bem armado que o Islão. O problema do ocidente é a sua própria decadência, aquela humildade espúria de se auto-culpabilizar e de se desacreditar. Quando a tentativa de simplificar e racionalizar os mistérios da fé vence numa sociedade, perde-se a ligação entre a natureza humana e Deus, que é a substância da Encarnação. Perde-se a dignidade humana, embora permanecendo retórica. Perde-se a autoridade de Deus e a noção de prestar contas. Cristo aparece como um homem ou como um mito. O que se reduz a unitarismo acaba como paganismo.


“Ouçam, ó cristãos, Jesus é apenas um homem, homem entre homens, filho de Maria!”, diz a mesquita de Omar.


Essa recusa de compreender o aprisionamento do infinito no finito, essa recusa de um Deus humano, demasiado humano, é também uma recusa de casta. No império romano, da elite orgulhosa da sua tradição pagã, dos intelectuais que recusavam o incompreensível e não queriam misturas com a populaça, do exército que não podia aceitar uma igual condição para todos os seres humanos, do imperador que via recusada a sua infalibilidade e natureza essencialmente divina, e via crescer uma organização complexa que se auto-administrava e nomeava os seus próprios líderes, uma espécie de Estado dentro do Estado, com uma moral intransigente, a Igreja.




Contrariamente ao comumente acreditado, Constantino, que decretara a liberdade religiosa em 313, tinha mais simpatia com o arianismo do que com as ideias de Atanásio. Seria baptizado apenas na véspera da sua morte, em 337. Dentre os seus sucessores, os seus filhos eram arianos e Juliano, o seu sobrinho, seria um perseguidor e assassino de cristãos. O Senado e o Exército também abominavam essa nova religião e tinham simpatia pelo arianismo. Após o concílio de Niceia, Constantino chamou Atanásio, bispo de Alexandria, para re-admitir o excomungado Arius na Igreja. Atanásio recusou. Foi deportado. Em 367, um Atanásio de 70 anos de idade seria deportado pela quinta vez. Para a Gália, uma parvalheira de brutos e atrasados semi-selvagens. O deportado Atanásio converteria a Gália, o embrião do Ocidente. Atanásio morreria como o maior homem do seu tempo.


A diferença que ele cavou entre um ocidente onde o arianismo morreu e um oriente onde ele viveria o tempo suficiente para influenciar Maomé, reside na diferença entre o que aconteceu a oriente e a ocidente. O império romano do ocidente caiu com as supostas invasões bárbaras, que foram mais assimilações progressivas e autonomias crescentes. Os chefes do exército passaram a ser convertidos directamente do paganismo e não existia legado ou “ascendência”. O pedantismo morreu, o Ocidente nasceu. Deus era uma família, Cristo era Deus Ele-mesmo que se fez homem como nós.






António Campos

(O autor recomenda vivamente a leitura de The Great Heresies de Hilaire Belloc que serviu de base para este texto)

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