domingo, 25 de junho de 2017

Nicodemos e a Universidade




Sempre me diverti a ler a bíblia, mesmo quando não era crente. As histórias bíblicas
fizeram sempre parte do meu legado, desde criança. Diz-se que a bíblia tem muitos níveis de leitura; tem por vezes um sentido literal, outras metafórico, figurado ou alegórico.
Confesso que nunca fui um exegeta e certos teólogos aborrecem-me (lembro Jean Gitton, que dizia que Hans Küng era muito rico e andava de carro de luxo). Na minha óptica, entre outras coisas que a Igreja muito louvavelmente sublinha, a conversa com a samaritana é um reconhecimento tácito da condição da mulher, o encontro com o nobre rico é uma crítica à mentalidade calvinista, a réplica no Domingo de Ramos (se eles se calarem falarão as pedras) um elogio à construção das catedrais e a entrevista com Nicodemos é…o encontro com a universidade.

O que é a universidade?

A universidade é uma criação da Idade Média (Bolonha 1088, Paris 1150, Salamanca 1134, Oxford 1167, Pádua 1202, Cambridge 1209, Siena 1240, Coimbra 1290). O saber acumulado pelos monges copistas, a construção dos hospitais e das grandes catedrais, o crescimento das urbes, o ensino da teologia e da ciência, a maior complexidade económica, a ciência militar, formaram as condições para a criação do ensino superior que, em última análise, originou a expansão europeia e a sua supremacia científica, económica, tecnológica, militar e cultural.

O que é a moderna universidade? 

No raciocínio de Chesterton, “vale mais ler temas vivos de homens mortos do que temas mortos de homens vivos”, somos conduzidos a Newman. No seu ensaio, Newman defende que a universidade deve ensinar os alunos a pensar, a formular as questões certas, a exercer o pensamento livre. O seu objecto é formar o carácter, preparar para o trabalho e não preparar para a santidade ou salvar almas. A função da universidade não seria então apenas ministrar conhecimento, mas sim aplicar a razão ou pensamento sobre o conhecimento adquirido, por forma a atingir a excelência intelectual. A essa atitude pode chamar-se filosofia, não no sentido estrito do termo, mas no sentido lato, aplicado a cada uma das ciências que são objecto de ensino.


Newman não enaltece a investigação nem faz referência ao modelo americano de PhD importado da Alemanha, lançado por Halle e Göttingen e oficializado em Berlim por Wilhem von Humboldt, mas enfatiza a autonomia intelectual que se coloca à prova.
Esta é a essência da moderna universidade que, no entanto, apesar do seu sucesso, enferma das mesmas limitações que permeavam o modelo alemão. Uma coisa é dizer, como Newman, que a Universidade não tem como objecto a salvação das almas, mas sim a preparação intelectual dos homens. Outra coisa é proibir explicita ou subrepticiamente a menção ao transcendente ou ao mistério, que deve ficar no domínio privado, fora do campus.




O Sinédrio e Nicodemos são porventura as duas faces da Universidade. Dois modos de estar perante a realidade externa, mas também duas tonalidades diferentes de poder e influência. Por um lado, o orgulho arrogante, o tráfico de influências e o exercício do poder; por outro lado, a humildade curiosa, o exercício do pensamento crítico, o amor da verdade e…o receio de cair em desgraça entre os pares.


Aquelas duas ideias expressas por Newman sobre o que é uma universidade, i.e., moldar um cavalheiro e ensinar a pensar, encontram-se completamente retratadas na conversa entre Cristo e Nicodemos, mestre e aluno.

Hoje ninguém diz que o objecto da universidade é a procura da verdade, assente na observação empírica e na certeza a priori quanto à existência real da verdade sobre as coisas. Banalidades como o serviço à comunidade, a preparação para o mundo do trabalho, a procura do progresso, a excelência, são referidos, não como função da universidade mas como o seu objecto. Mas o que é um progresso que não tem uma orientação ética ou o que é uma excelência que não é uma coisa excelente? Um excelente mentiroso será dificilmente uma coisa excelente. Seguramente, precisamos de facas excelentes mas jamais deixaremos de punir a sua utilização para apunhalar um inocente. Há algo hoje na universidade de processo, mas não de objecto.

Uma vez que o que interessa é a excelência, toda a verdade e toda a mentira é igualmente considerada, desde que expressa de forma excelente. O tipo de tolerância moderna expresso como de tolerância para com todas as pessoas, o que seria louvável, transforma-se na realidade (uma vez que na universidade cada pessoa é tomada como uma ideia ou trabalho) numa imposição de tolerância para com todas as ideias, o que é repugnante. Na universidade em particular, torna-se um crime não concordar com o trabalho de alguém desde que seja excelente. Num universo sem ética, louva-se a inteligência. A sociedade encontra-se à beira do abismo moral de não conseguir ajuizar entre o assassino e o assassinado, desde que o assassino seja um indivíduo interessante e inteligente. O cavalheiro deixa de ser “aquele a quem repugna causar dor” ou aquele que é “calmo e crítico sobre o conhecimento”, para passar a ser aquele que faz bem aquilo que faz – Kant diria “não interessa o que faço, mas como faço aquilo que faço.” 



A universidade deve ser um espaço de livre discussão, mas o background dos interlocutores deve ser conhecido. Não existem posições neutrais, porque o relativismo é dogmático. Como dizia Popper, ninguém é uma tábua rasa. Nós operamos sempre com teorias, mesmo que não tenhamos consciência disso. Deve ser desmascarada esta atitude geral de tolerância para com a mentira que reina na universidade. Embora o objecto da universidade seja aprender, é bom que esse conhecimento seja alimentado da verdade e avaliado pelas suas consequências éticas, definidas pela cultura de uma civilização. Embora a fé fique à porta da sala de aula, não deve ser proscrita do campus porque, como afirmava Dawson, cultura vem de culto. É possível aceitar os ensinamentos da Igreja, mas manter o espírito crítico e a integridade intelectual. Perdida a ligação à fé, à ética e ao sentido de prestar contas, o plágio e a mentira assaltarão uma universidade dominada pelo nepotismo e pelo servilismo carreirista. Precisamente o oposto do que primeiro se pretendia de uma universidade: a independência intelectual e o espírito crítico.


Nesse ponto de vista a entrevista com Nicodemos é elucidativa. Um aprendiz de carpinteiro vai ser interrogado por um “professor” do Sinédrio, à noite, à socapa, o que é revelador da atitude geral no Sinédrio. O paralelismo com uma universidade que despreza e ridiculariza os agradecimentos a Cristo nas teses é por demais evidente.


“Como pode um homem reentrar no ventre de sua mãe e nascer do novo?”, questiona um perplexo Nicodemos. Cristo enfatiza a necessidade de uma nova atitude para adquirir o conhecimento verdadeiro: a humildade. O negar-se a si mesmo que tantas vezes repetiria. O homem que se fecha sobre si mesmo tem muita dificuldade em adquirir conhecimento e aplicar sobre ele a razão, como ainda mais dificuldade tem em possuir aquela empatia humilde para o comunicar, apanágio dos grandes mestres. O grande professor é sempre humilde, de uma humildade genuína, conatural, não fingida. Fica sempre na memória dos seus alunos como um grande mestre, um cavalheiro, um senhor. Não é apenas um homem que faz bem aquilo que faz, é também um homem bom.

Mas Cristo continua: sabes tudo sobre as coisas físicas, a ligação da aparência das nuvens de hoje ao tempo que fará amanhã, mas nada sabes sobre o ambiente psicológico, social, sobre as coisas do espírito. E porquê? Porque só acreditas no que vês, os limites do conhecimento são definidos pelos teus olhos, pela tua razão. Não admites que exista conhecimento para além da razão: o mistério, o amor, o espírito, a alma humana. Tal como o vento…não o vês e ele sopra onde quer. 

Nicodemos na posição de uma universidade que não vê, porque só tem um olho. Essa ideia liga-se com Marta e Maria (Lu 10, 38-42): o homem não é apenas um animal, não vive apenas de reprodução e economia, ele é um ser espiritual. É frequente ouvir-se dizer, na universidade actual, que nós vivemos apenas para a reprodução e depois entramos em declínio, após os 45 anos de idade. Este é o paradigma da ciclopia: quantas obras de arte, ciência e literatura foram criadas por pessoas numa idade em que já eram presbíopes?




Nicodemos também representa a esperança da universidade: o amor pela verdade, a valorização do indivíduo pelo que é e não por quem é, a humildade, o gosto pela verdade, mesmo pagando um preço.

E tu que és mestre na Universidade (Israel) não sabes todas estas coisas?, interroga Cristo. Esta é a pergunta que Cristo continua a formular à universidade actual, afundada na dúvida de Pilatos e no problema crítico pós-kantiano.

Mais à frente, Nicodemos lembra ao Sinédrio que se deve ouvir e estudar, antes de fazer um julgamento (Jo 7, 51-52). A universidade recusa estudar um homem aprendiz de carpinteiro de uma remota província do império romano, que partiu a história a meio e que é o principal pilar da civilização ocidental. O único que disse ser Deus, o único que voltou do maior destino que aguarda todos os homens: a morte. “Ele é apenas um Galileu!”, i.e., um zé-ninguém que não pensa como nós. Não comunga connosco materialmente (não é do nosso círculo, não tem pedigree), nem espiritualmente (não partilha as nossas ideias). Nestas palavras sem assinatura (Jo 7, 52-53), escondem-se a universidade e a imprensa modernas.

Primus inter pares – hoje é tudo quanto se busca a qualquer preço, mas o lema não é digno da universidade, é mais indicado para um maço de tabaco.

Como realça Ratzinger em Jesus de Nazaré (Semana Santa), os 33 Kg de mirra e aloé que Nicodemos usou para embalsamar Jesus caracterizam um enterro real.

Ainda há esperança para a universidade…quando nascer de novo!



António Campos



quinta-feira, 15 de junho de 2017

O Corpo de Deus e os Rude Boys





Até 31 de Maio de 1998 a questão do corpo de Deus era-me tão longínqua, indistinta e diáfana, como o era à maioria das almas que eu conhecia. Foi por ocasião do meu crisma, durante a celebração, que o Sr. D. João Alves me remeteu para o foco na questão ao interrogar uma jovem alma, minha camarada de “infortúnio”.


No ano de 325, o jovem diácono Atanásio dirigiu-se à povoação de Niceia, actual Iznik, na Turquia asiática. Eloquente e bravo, determinado, estaria provavelmente longe de vislumbrar a extraordinária civilização que se ergueria sobre a sua posição, o Ocidente.

Desde o Pentecostes, algures entre 29 e 33 DC, que entre os convertidos se formaram seitas heréticas, sobretudo durante os primeiros 3 séculos, versando sobre a real natureza de Cristo. A sua génese assentava na natural ânsia humana de racionalizar o incompreensível, de exorcizar o mistério, de rejeitar tudo o que está para além da razão humana. A maioria dos heresiarcas tiveram em comum a vaidade e a ambição, um certo autismo espiritual, i.e., uma crença desmedida nas suas próprias ideias, um racionalismo lógico aliado a grande eloquência. Arius, um clérigo africano líder da nova seita ariana, não fugia ao estereótipo. O arianismo defendia que Cristo não era Deus, Ele mesmo. Cristo teria um lugar privilegiado, teria sido criado antes de todas as criaturas, o mundo poderia mesmo ter sido criado por ou através dele, a sua substância até poderia ser divina, mas…não era Deus!


Mas o que interessa uma questão tão aparentemente espúria à nossa vida actual, ao dia a dia em que temos que ganhar a vida e sobreviver aos impostos do Estado? Para compreender isso teremos que constatar que civilização foi construída sobre essa ideia: o maometanismo!


Como dizia Chesterton, o homem não é apenas economia, ele também não suporta viver fora da verdade, da sabedoria. O homem não vive só de pão, mas também da palavra, do verbo. E as grandes civilizações decaem por esquecer coisas óbvias. Os grandes inimigos do ocidente actual não são estes muçulmanos que nos ameaçam com bombas ou com facas. O ocidente é muito mais desenvolvido, rico, multiforme e bem armado que o Islão. O problema do ocidente é a sua própria decadência, aquela humildade espúria de se auto-culpabilizar e de se desacreditar. Quando a tentativa de simplificar e racionalizar os mistérios da fé vence numa sociedade, perde-se a ligação entre a natureza humana e Deus, que é a substância da Encarnação. Perde-se a dignidade humana, embora permanecendo retórica. Perde-se a autoridade de Deus e a noção de prestar contas. Cristo aparece como um homem ou como um mito. O que se reduz a unitarismo acaba como paganismo.


“Ouçam, ó cristãos, Jesus é apenas um homem, homem entre homens, filho de Maria!”, diz a mesquita de Omar.


Essa recusa de compreender o aprisionamento do infinito no finito, essa recusa de um Deus humano, demasiado humano, é também uma recusa de casta. No império romano, da elite orgulhosa da sua tradição pagã, dos intelectuais que recusavam o incompreensível e não queriam misturas com a populaça, do exército que não podia aceitar uma igual condição para todos os seres humanos, do imperador que via recusada a sua infalibilidade e natureza essencialmente divina, e via crescer uma organização complexa que se auto-administrava e nomeava os seus próprios líderes, uma espécie de Estado dentro do Estado, com uma moral intransigente, a Igreja.




Contrariamente ao comumente acreditado, Constantino, que decretara a liberdade religiosa em 313, tinha mais simpatia com o arianismo do que com as ideias de Atanásio. Seria baptizado apenas na véspera da sua morte, em 337. Dentre os seus sucessores, os seus filhos eram arianos e Juliano, o seu sobrinho, seria um perseguidor e assassino de cristãos. O Senado e o Exército também abominavam essa nova religião e tinham simpatia pelo arianismo. Após o concílio de Niceia, Constantino chamou Atanásio, bispo de Alexandria, para re-admitir o excomungado Arius na Igreja. Atanásio recusou. Foi deportado. Em 367, um Atanásio de 70 anos de idade seria deportado pela quinta vez. Para a Gália, uma parvalheira de brutos e atrasados semi-selvagens. O deportado Atanásio converteria a Gália, o embrião do Ocidente. Atanásio morreria como o maior homem do seu tempo.


A diferença que ele cavou entre um ocidente onde o arianismo morreu e um oriente onde ele viveria o tempo suficiente para influenciar Maomé, reside na diferença entre o que aconteceu a oriente e a ocidente. O império romano do ocidente caiu com as supostas invasões bárbaras, que foram mais assimilações progressivas e autonomias crescentes. Os chefes do exército passaram a ser convertidos directamente do paganismo e não existia legado ou “ascendência”. O pedantismo morreu, o Ocidente nasceu. Deus era uma família, Cristo era Deus Ele-mesmo que se fez homem como nós.






António Campos

(O autor recomenda vivamente a leitura de The Great Heresies de Hilaire Belloc que serviu de base para este texto)