sábado, 14 de outubro de 2017

O Sacerdote da Primavera




Sempre me fascinou o tempo e o silêncio. 


 O tempo na filosofia ocidental encontra-se associado a três ideias fundamentais: mudança, progresso e envelhecimento. 
Eu gostaria de pensar em três ideias menos inquietantes: paciência, memória e esperança. 
As pessoas precisam de tempo: tempo para se desenvolverem, tempo  para se encontrarem. Desse modo deveremos ser, como diz o Novo Testamento, lentos a julgar. 
Quanto à esperança, não me refiro aqui à esperança que o tempo traz para os crentes. Prefiro falar do tempo como curativo. Por um lado, da  forma como sara as nossas feridas, como problemas  que nos pareceram gigantescos se resolvem e se esfumam; por outro, da possibilidade que o tempo dá para o perdão. Como pode evitar que reviver uma dor do passado no presente seja fazer outra dor e sofrer novamente, como dizia Shakespeare. Dessa forma, pacifica e sara.

Relativamente à memória, não seríamos o que somos se não fôssemos passageiros no comboio da História. Se não integrássemos o ontem, estaríamos sempre entre desconhecidos e sem casa.
Natal de 1999, Kowloon. Algures entre Tsim Sha Tsui e Yau Ma Tei. A minha mente é assaltada pela miríade de caracteres chineses suspensos e sobrepostos como reclamos luminosos. Esse ruído gráfico e a estranha ausência pública do presépio, despertam-me para o valor da paz e do silêncio. Encontro em Macau a fachada da Catedral de São Paulo, réplica da Sé Nova de Coimbra, construída pelos jesuítas. Uma igreja sem corpo, apenas face, numa cidade que se chama A Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.

Silêncio, silens, estar sossegado, em repouso. O silêncio não é um nada; é um encontro. Se falas constantemente, não pensas; se sempre rebates um argumento, alimentas uma discussão sem fim. A um argumento pode sempre opor-se outro argumento, dizia Dostoiévski. Como pesam as palavras daqueles que  as usam com parcimónia!

O silêncio não é um nada, é um encontro: connosco e com o intangível. Com aquilo que nos fala da mesma forma que a luz do sol; que ilumina a nossa vida com a marca da bondade. Um rosto, uma ruga, um olhar, um gesto, deixam a marca de um botão de rosa. Mas se o silêncio é um encontro com a externalidade intangível, o silêncio também é um encontro com  o intangível em si próprio. Eu acordei na minha circunstância e possuo facetas que não domino nem conheço. Diz Jeremias e o salmista (139), que “antes mesmo de te formar no ventre materno Eu te escolhi”. Não escolhi a minha família, o meu nome, o meu país, o meu corpo, não foi minha decisão nascer como testemunha o meu cordão umbilical. Todas as tentativas de me conhecer, são aproximações narcísicas, que o silêncio delimita e reconcilia. 
Não é verdade que eu vejo o argueiro no olho do outro mas não vejo a trave no meu próprio olho? Ou como dizia Chesterton, "(Senhor) Dai-me olhos miraculosos para ver os meus olhos, esses espelhos que rolam vivos em mim..."



Existe um personagem  que integra em si mesmo o tempo e o silêncio, a eternidade e a ausência de réplica, o perdão e a paz. Esse personagem arrebatador, de silêncios desconcertantes, anunciado por todos os profetas, é o único sobrevivente de ecos semelhantes na História. Sobre ele construiu-se uma poderosa civilização e cultura. Ele que acalmou o vento, possui uma singular integração nas estações do ano. Com elas marcha, como numa peregrinação. Nascido no Natal, eis o Sacerdote da Primavera:

"O sol apareceu e o ar amainou  no Domingo de Páscoa. Trata-se de uma claridade intrigante que traz um fôlego não apenas de novidade, mas também de revolução. Existem dois grandes exércitos do intelecto humano que se degladiarão até ao fim em torno de uma questão vital:
Deve enaltecer-se a Páscoa por ela se encaixar na Primavera ou deve enaltecer-se a Primavera por ela se encaixar na Páscoa?

Na verdade, as únicas duas coisas que satisfazem a alma humana são uma pessoa e uma história; e mesmo a história tem que ser acerca de uma pessoa.

Existem na realidade apetites bastante voluptuosos e divertimento nas meras abstracções - como a matemática, a lógica ou o xadrez. Mas estes prazeres da mente são como os prazeres do corpo: são meros prazeres, embora possam ser intensos, nunca, por uma mera gradação de si próprios, poderão conduzir à felicidade.

Um homem que está para ser enforcado pode apreciar o pequeno-almoço, sobretudo se for o seu pequeno-almoço favorito; do mesmo modo, pode apreciar discutir com o confessor um dado argumento herético, sobretudo se constar da sua heresia favorita. Mas o modo como ele aprecia cada um deles não depende intrinsecamente deles; pelo contrário, depende da sua atitude perante um acontecimento subsequente.

E é esse evento que é realmente interessante para a alma; porque é o fim de uma história e, como alguns defendem, o fim de uma pessoa.




Esta verdade é tão simples que está, como outras, vedada aos nossos cientistas. É aqui que eles se enganam redondamente, não apenas sobre a religião verdadeira, mas também sobre as falsas religiões. A sua concepção da mitologia é mais mitológica que o próprio mito.

Existe um tipo de idiotia que encanta o discurso das pessoas modernas, mesmo quando estão acordadas e que me irrita profundamente. Derivou da ciência do século XIX, especialmente no que concerne ao estudo de mitos e religiões. O fragmento de conversa da treta a que me refiro flui do seguinte modo: "Este deus realmente simboliza o sol" ou "Apolo matar a pitão significa que o sol acaba com o inverno" ou "Um rei moribundo numa batalha a ocidente é um símbolo do sol que se põe a oeste.”

Um deus nunca foi um hieróglifo ou símbolo do sol! Era o sol que era um hieróglifo a representar o deus. Nenhum ser humano foi realmente tão contra-natura que adorasse a natureza.

Nós, seres humanos, nunca adorámos a Natureza, por uma razão muito simples. Porque nós somos seres sobrenaturais. Nós imprimimos a nossa imagem na natureza, tal como Deus imprimiu a Sua imagem sobre nós. Nós ordenámos ao sol enorme que permanecesse quieto e imprimimo-lo nos nossos escudos, tratando uma estrela do céu como se fosse uma estrela do mar. E, quando existiam poderes na natureza que não conseguíamos controlar, concebemos enormes seres antropomórficos que os controlassem. Júpiter não significa a trovoada. A trovoada significa a marcha e a vitória de Júpiter. Neptuno não significa o mar; pelo contrário, o mar é sua propriedade, foi ele que o fez.



Reafirmo que ninguém pode compreender qualquer mito, até encontrar um que não seja um mito. Nabos fantasmagóricos nada significam, se não existirem fantasmas. Notas de banco falsas nada significam, a menos que existam notas verdadeiras.
Deuses pagãos nada significam e nada podem significar para aqueles de nós que negam o Deus cristão. Sempre que se conceba um deus, mesmo que um deus falso, o Universo encontra o seu verdadeiro lugar, i. e., o segundo lugar. Quando se trata do verdadeiro Deus, o Universo ajoelha-se, oferecendo flores na primavera e fogueiras no inverno. "O meu amor é como uma rosa vermelha, uma rubra rosa" não significa que o poeta esteja a galantear as rosas usando alegoricamente a imagem de uma jovem senhora. "O meu amor é um medronho” não significa que o autor é um botânico tão deliciado com um medronheiro que se sinta compelido a dizer que o ama. "Aquele que fez a lua e governa o meu céu" não significa que Julieta tenha insinuado que Romeu é o responsável por a lua ser redonda. "Cristo é o sol da Páscoa" não significa que o orante se esteja a dirigir ao sol sob a simbologia de Cristo. Uma deusa ou um deus podem vestir-se de primavera ou de verão; mas o corpo é mais do que roupas.

A religião toma quase com ligeireza o vestido da natureza; e, na verdade, a Cristandade deu-se tão bem com as neves (snow) do Natal como com as campaínhas--de-inverno da primavera (flores do género Galanthus, em inglês snow-drops).

E quando olho para os campos banhados de sol, sinto no âmago dos meus ossos que a minha alegria não reside apenas na primavera, porque a primavera, estando sempre condenada a retornar, seria sempre triste. Existe algo ou alguém que lá caminha, para ser coroado de flores: e o meu deleite reside numa promessa anunciada e na ressurreição dos mortos."

(Entre aspas, The Priest of Spring de G. K. Chesterton).





António Campos 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A S. Miguel em tempo de paz






Miguel, Miguel: Estrela da Manhã,
Miguel dos Exércitos do Senhor,
Apertai a vossa mão sobre a espada embainhada, Miguel,
Dobrada e apertada sobre o punho, Miguel,
Sob a plenitude da Vossa alva pendente,
Cinge-nos com o segredo da espada.



Quando o mundo fendeu por um escárnio,
Deixando no céu uma cicatriz para sempre,
Ergueste-vos contra o Horror nas Alturas,
Precipitando o poderoso que olhou sobranceiro para o Altíssimo:
Removendo do sétimo céu o inferno da mania
Desde o sétimo céu para um mar de trevas ardente:
Vós que num trovão atirastes o Dragão
Sabeis em que silêncio a Serpente pode voltar.





Precipitando-se pelo universo a vasta noite cai
(Miguel, Miguel: Estrela da Manhã!)
Do fundo do universo clamam as calmas profundas
(Miguel, Miguel: Miguel da Espada!)
Não nos deixeis perder nos mares do esquecimento,
No sinal deixado há muito pelo furor e pela petulância
No santo e imenso sempre eterno silêncio
No princípio era o Verbo.





Quando dos abismos de um inaudito Deus agonizante
Anjos e demónios que tudo fazem menos morrer
Vendo-O cair sem o poder seguir,
Vendo-O subir sem poder voar,
Mão na espada, Vossas legiões em prontidão
Esperando pelo Tetelestai* e a aclamação,
Espadas que O saúdam morto e Eterno
Deus acima de Deus e maior do que o Seu Nome.



Rodeando-nos e cobrindo-nos frias ideias rastejantes
(Miguel, Miguel: Miguel do grito de guerra!)
Rodeando-nos e por baixo de nós o mundo apinhado dorme
(Miguel, Miguel: Miguel da Carga!)
Guardai-nos o Verbo; aconchegante e confiável
Acima da honra e da lâmina polida
Delicado como um cabelo e tenso como uma corda de harpa
Pronto como quando silva rumo ao alvo.





Aquele que nos deu a paz; não como o mundo a dá:
Aquele que nos deu a lei; não como a dos escribas:
Será ele amolecido pelo compromisso das cidades
Calando com a usura; manso com o suborno?
Aqueles que nos desencorajam, dizendo que a espada partiu,
Quebram os homens pela fome, atam-lhes a mãos com o ouro,
Vendem-nos como ovelhas; mas ele conhece a venda
Pois Ele foi mais do que assassinado. Ele foi vendido.



Miguel, Miguel: Miguel da Convocação,
Miguel da marcha pelas montanhas do Senhor,
Comandai o mundo e purificai-o da podridão e da revolta
Prevalecei sobre o mundo até que ele acalme:
Decretai neste mundo perdido
Que o verbo prevalece.**








* Estar consumado, consumação.
** Palavra
G. K. Chesterton

Tradução idiomática: António Campos

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Revolução e Mudança




Em Ortodoxia, existe uma alusão de G. K. Chesterton que nunca foi realçada pelos seus
leitores. Stanley L. Jaki foi o primeiro a entender o seu alcance. Nela, Chesterton resume o seu pensamento e revela toda a sua natureza de filósofo não profissional. Diz ele, no final do capítulo “O Suicídio do Pensamento”, que essa passagem resume todo o conteúdo do livro, uma espécie de revisão sobre o pensamento moderno:


“Os homens tentaram transformar o verbo revolucionar de transitivo para intransitivo.”



É possível que o alcance de tal afirmação seja mais imediatamente perceptível para um professor de língua portuguesa do que para um filósofo, o que só abona a favor da formação do seu autor.
Chesterton dizia que existiam dois grandes princípios para uma filosofia (ou pensamento) sã:


1 – A realidade extravasa os cubículos da lógica e das sequências lógicas.


2 – A marca da realidade é a sua especificidade, quer na singularidade de cada coisa, quer na sua racionalidade apreensível pela ciência. É aquilo a que ele chamou “a estranheza das coisas”, cada coisa é nova, não é uma mera repetição, é única.




O facto da existência de tal especificidade e racionalidade aponta para uma escolha racional e para um Criador.
Esta concepção é antagónica com a concepção de um universo meramente mecanicista, que implica a destruição, não de Deus, mas do homem como entidade metafísica. Um universo vasto reduz a condição do homem à insignificância; uma ontologia mecanicista abole a hipótese de escolha e nega a liberdade do homem e a novidade no universo.


Concluindo: uma lógica não assente apenas em ideias como ponto de partida, mas sim em percepções dos sentidos, define o realismo filosófico; as noções de novidade, de liberdade e de livre-arbítrio definem o realismo metafísico. Chesterton era, por conseguinte, ambos.





Uma lógica apenas assente em ideias é particular e individual, conduz ao solipsismo e ao pessimismo – é o idealismo. Uma ontologia mecanicista nega ao homem a sua liberdade, o livre-arbítrio, a sua dimensão espiritual e ontológica. O seu produto é um liberalismo psicológico ou subjectivista, em que a liberalização não conhece limites.


Pelo contrário, o realismo conduz a um liberalismo que assenta a sua primeira ideia objectivamente na dignidade do homem, como expressa no cristianismo e plasmada na Carta Constitucional Americana. É a diferença entre uma revolução, ou mudança, que nunca submete a liberdade humana (dentro do compromisso ou regra) – Chesterton chamou-lhe limites ou ética dos contos de fadas - e uma mudança cuja principal qualidade é ser mudança. Esta última subentende preferir a busca (pela verdade) à própria verdade, como afirmava Berenson; nega a existência da verdade objectiva. Nesse sentido, revolucionar em sentido intransitivo implica um desprezo pelas coisas que mudam e um desdém sobre o que permanece imutável nessa mudança, ignorando ostensivamente se a mudança realmente significa um progresso, i.e., valor acrescentado. É a mudança pela mudança.




 

A marca de Aristóteles, “o mais sábio de todos os homens”, campeão da mudança na continuidade, encontra-se presente no pensamento de Chesterton. Para Aristóteles, as ditaduras seriam resultantes de processos lógicos ancorados em ideias – idealismos, ideologias ou solipsismos – e seriam apenas derrubadas pela realidade externa (crise económica, cataclismos naturais, guerra).



Admitindo uma realidade externa racional que pode ser lida pela mente, a tentação de entender a realidade externa como produto da mente é uma ameaça real – é a diferença entre reflexão e imaginação. Dito por outras palavras, embora a matemática seja pré-existente ao próprio universo e sua condição necessária, se não existissem coisas reais, não existiria universo. É o realismo que, ao ancorar nas percepções dos sentidos e admitir a realidade como externa, embora articulando-se por relações e leis racionais, nos protege deste erro tremendo do idealismo alemão.



Um exemplo de atracção pela mudança, pela moda, como sublinhado por Paul Kleinman em All You Need To Know About Philosophy, é representado pelo relativismo moral. De acordo com os seus seguidores, o facto do que é certo e errado depender de cada cultura, aliado ao facto de que não existem culturas superiores, impede um julgamento moral. Bem e mal não seriam valores absolutos, mas relativos.

A resposta a um comportamento x não seria o julgamento (aprovação/condenação), mas sim a tolerância.

Contudo, a tolerância implica a intolerância, i.e., a atitude daqueles "radicais" que insistem em fazer um julgamento à luz de valores morais absolutos, de princípios morais. Esses "intolerantes" são diabolizados, o que implica um julgamento de bem e mal. O relativismo moral é antinomínico, i.e., implica uma contradição lógica. É uma forma de suicídio do pensamento.



Uma lógica ancorada numa realidade objectiva nunca enaltecerá a mudança pela mudança, um progresso sem ética, revolucionar como verbo intransitivo.




António Campos


domingo, 25 de junho de 2017

Nicodemos e a Universidade




Sempre me diverti a ler a bíblia, mesmo quando não era crente. As histórias bíblicas
fizeram sempre parte do meu legado, desde criança. Diz-se que a bíblia tem muitos níveis de leitura; tem por vezes um sentido literal, outras metafórico, figurado ou alegórico.
Confesso que nunca fui um exegeta e certos teólogos aborrecem-me (lembro Jean Gitton, que dizia que Hans Küng era muito rico e andava de carro de luxo). Na minha óptica, entre outras coisas que a Igreja muito louvavelmente sublinha, a conversa com a samaritana é um reconhecimento tácito da condição da mulher, o encontro com o nobre rico é uma crítica à mentalidade calvinista, a réplica no Domingo de Ramos (se eles se calarem falarão as pedras) um elogio à construção das catedrais e a entrevista com Nicodemos é…o encontro com a universidade.

O que é a universidade?

A universidade é uma criação da Idade Média (Bolonha 1088, Paris 1150, Salamanca 1134, Oxford 1167, Pádua 1202, Cambridge 1209, Siena 1240, Coimbra 1290). O saber acumulado pelos monges copistas, a construção dos hospitais e das grandes catedrais, o crescimento das urbes, o ensino da teologia e da ciência, a maior complexidade económica, a ciência militar, formaram as condições para a criação do ensino superior que, em última análise, originou a expansão europeia e a sua supremacia científica, económica, tecnológica, militar e cultural.

O que é a moderna universidade? 

No raciocínio de Chesterton, “vale mais ler temas vivos de homens mortos do que temas mortos de homens vivos”, somos conduzidos a Newman. No seu ensaio, Newman defende que a universidade deve ensinar os alunos a pensar, a formular as questões certas, a exercer o pensamento livre. O seu objecto é formar o carácter, preparar para o trabalho e não preparar para a santidade ou salvar almas. A função da universidade não seria então apenas ministrar conhecimento, mas sim aplicar a razão ou pensamento sobre o conhecimento adquirido, por forma a atingir a excelência intelectual. A essa atitude pode chamar-se filosofia, não no sentido estrito do termo, mas no sentido lato, aplicado a cada uma das ciências que são objecto de ensino.


Newman não enaltece a investigação nem faz referência ao modelo americano de PhD importado da Alemanha, lançado por Halle e Göttingen e oficializado em Berlim por Wilhem von Humboldt, mas enfatiza a autonomia intelectual que se coloca à prova.
Esta é a essência da moderna universidade que, no entanto, apesar do seu sucesso, enferma das mesmas limitações que permeavam o modelo alemão. Uma coisa é dizer, como Newman, que a Universidade não tem como objecto a salvação das almas, mas sim a preparação intelectual dos homens. Outra coisa é proibir explicita ou subrepticiamente a menção ao transcendente ou ao mistério, que deve ficar no domínio privado, fora do campus.




O Sinédrio e Nicodemos são porventura as duas faces da Universidade. Dois modos de estar perante a realidade externa, mas também duas tonalidades diferentes de poder e influência. Por um lado, o orgulho arrogante, o tráfico de influências e o exercício do poder; por outro lado, a humildade curiosa, o exercício do pensamento crítico, o amor da verdade e…o receio de cair em desgraça entre os pares.


Aquelas duas ideias expressas por Newman sobre o que é uma universidade, i.e., moldar um cavalheiro e ensinar a pensar, encontram-se completamente retratadas na conversa entre Cristo e Nicodemos, mestre e aluno.

Hoje ninguém diz que o objecto da universidade é a procura da verdade, assente na observação empírica e na certeza a priori quanto à existência real da verdade sobre as coisas. Banalidades como o serviço à comunidade, a preparação para o mundo do trabalho, a procura do progresso, a excelência, são referidos, não como função da universidade mas como o seu objecto. Mas o que é um progresso que não tem uma orientação ética ou o que é uma excelência que não é uma coisa excelente? Um excelente mentiroso será dificilmente uma coisa excelente. Seguramente, precisamos de facas excelentes mas jamais deixaremos de punir a sua utilização para apunhalar um inocente. Há algo hoje na universidade de processo, mas não de objecto.

Uma vez que o que interessa é a excelência, toda a verdade e toda a mentira é igualmente considerada, desde que expressa de forma excelente. O tipo de tolerância moderna expresso como de tolerância para com todas as pessoas, o que seria louvável, transforma-se na realidade (uma vez que na universidade cada pessoa é tomada como uma ideia ou trabalho) numa imposição de tolerância para com todas as ideias, o que é repugnante. Na universidade em particular, torna-se um crime não concordar com o trabalho de alguém desde que seja excelente. Num universo sem ética, louva-se a inteligência. A sociedade encontra-se à beira do abismo moral de não conseguir ajuizar entre o assassino e o assassinado, desde que o assassino seja um indivíduo interessante e inteligente. O cavalheiro deixa de ser “aquele a quem repugna causar dor” ou aquele que é “calmo e crítico sobre o conhecimento”, para passar a ser aquele que faz bem aquilo que faz – Kant diria “não interessa o que faço, mas como faço aquilo que faço.” 



A universidade deve ser um espaço de livre discussão, mas o background dos interlocutores deve ser conhecido. Não existem posições neutrais, porque o relativismo é dogmático. Como dizia Popper, ninguém é uma tábua rasa. Nós operamos sempre com teorias, mesmo que não tenhamos consciência disso. Deve ser desmascarada esta atitude geral de tolerância para com a mentira que reina na universidade. Embora o objecto da universidade seja aprender, é bom que esse conhecimento seja alimentado da verdade e avaliado pelas suas consequências éticas, definidas pela cultura de uma civilização. Embora a fé fique à porta da sala de aula, não deve ser proscrita do campus porque, como afirmava Dawson, cultura vem de culto. É possível aceitar os ensinamentos da Igreja, mas manter o espírito crítico e a integridade intelectual. Perdida a ligação à fé, à ética e ao sentido de prestar contas, o plágio e a mentira assaltarão uma universidade dominada pelo nepotismo e pelo servilismo carreirista. Precisamente o oposto do que primeiro se pretendia de uma universidade: a independência intelectual e o espírito crítico.


Nesse ponto de vista a entrevista com Nicodemos é elucidativa. Um aprendiz de carpinteiro vai ser interrogado por um “professor” do Sinédrio, à noite, à socapa, o que é revelador da atitude geral no Sinédrio. O paralelismo com uma universidade que despreza e ridiculariza os agradecimentos a Cristo nas teses é por demais evidente.


“Como pode um homem reentrar no ventre de sua mãe e nascer do novo?”, questiona um perplexo Nicodemos. Cristo enfatiza a necessidade de uma nova atitude para adquirir o conhecimento verdadeiro: a humildade. O negar-se a si mesmo que tantas vezes repetiria. O homem que se fecha sobre si mesmo tem muita dificuldade em adquirir conhecimento e aplicar sobre ele a razão, como ainda mais dificuldade tem em possuir aquela empatia humilde para o comunicar, apanágio dos grandes mestres. O grande professor é sempre humilde, de uma humildade genuína, conatural, não fingida. Fica sempre na memória dos seus alunos como um grande mestre, um cavalheiro, um senhor. Não é apenas um homem que faz bem aquilo que faz, é também um homem bom.

Mas Cristo continua: sabes tudo sobre as coisas físicas, a ligação da aparência das nuvens de hoje ao tempo que fará amanhã, mas nada sabes sobre o ambiente psicológico, social, sobre as coisas do espírito. E porquê? Porque só acreditas no que vês, os limites do conhecimento são definidos pelos teus olhos, pela tua razão. Não admites que exista conhecimento para além da razão: o mistério, o amor, o espírito, a alma humana. Tal como o vento…não o vês e ele sopra onde quer. 

Nicodemos na posição de uma universidade que não vê, porque só tem um olho. Essa ideia liga-se com Marta e Maria (Lu 10, 38-42): o homem não é apenas um animal, não vive apenas de reprodução e economia, ele é um ser espiritual. É frequente ouvir-se dizer, na universidade actual, que nós vivemos apenas para a reprodução e depois entramos em declínio, após os 45 anos de idade. Este é o paradigma da ciclopia: quantas obras de arte, ciência e literatura foram criadas por pessoas numa idade em que já eram presbíopes?




Nicodemos também representa a esperança da universidade: o amor pela verdade, a valorização do indivíduo pelo que é e não por quem é, a humildade, o gosto pela verdade, mesmo pagando um preço.

E tu que és mestre na Universidade (Israel) não sabes todas estas coisas?, interroga Cristo. Esta é a pergunta que Cristo continua a formular à universidade actual, afundada na dúvida de Pilatos e no problema crítico pós-kantiano.

Mais à frente, Nicodemos lembra ao Sinédrio que se deve ouvir e estudar, antes de fazer um julgamento (Jo 7, 51-52). A universidade recusa estudar um homem aprendiz de carpinteiro de uma remota província do império romano, que partiu a história a meio e que é o principal pilar da civilização ocidental. O único que disse ser Deus, o único que voltou do maior destino que aguarda todos os homens: a morte. “Ele é apenas um Galileu!”, i.e., um zé-ninguém que não pensa como nós. Não comunga connosco materialmente (não é do nosso círculo, não tem pedigree), nem espiritualmente (não partilha as nossas ideias). Nestas palavras sem assinatura (Jo 7, 52-53), escondem-se a universidade e a imprensa modernas.

Primus inter pares – hoje é tudo quanto se busca a qualquer preço, mas o lema não é digno da universidade, é mais indicado para um maço de tabaco.

Como realça Ratzinger em Jesus de Nazaré (Semana Santa), os 33 Kg de mirra e aloé que Nicodemos usou para embalsamar Jesus caracterizam um enterro real.

Ainda há esperança para a universidade…quando nascer de novo!



António Campos



quinta-feira, 15 de junho de 2017

O Corpo de Deus e os Rude Boys





Até 31 de Maio de 1998 a questão do corpo de Deus era-me tão longínqua, indistinta e diáfana, como o era à maioria das almas que eu conhecia. Foi por ocasião do meu crisma, durante a celebração, que o Sr. D. João Alves me remeteu para o foco na questão ao interrogar uma jovem alma, minha camarada de “infortúnio”.


No ano de 325, o jovem diácono Atanásio dirigiu-se à povoação de Niceia, actual Iznik, na Turquia asiática. Eloquente e bravo, determinado, estaria provavelmente longe de vislumbrar a extraordinária civilização que se ergueria sobre a sua posição, o Ocidente.

Desde o Pentecostes, algures entre 29 e 33 DC, que entre os convertidos se formaram seitas heréticas, sobretudo durante os primeiros 3 séculos, versando sobre a real natureza de Cristo. A sua génese assentava na natural ânsia humana de racionalizar o incompreensível, de exorcizar o mistério, de rejeitar tudo o que está para além da razão humana. A maioria dos heresiarcas tiveram em comum a vaidade e a ambição, um certo autismo espiritual, i.e., uma crença desmedida nas suas próprias ideias, um racionalismo lógico aliado a grande eloquência. Arius, um clérigo africano líder da nova seita ariana, não fugia ao estereótipo. O arianismo defendia que Cristo não era Deus, Ele mesmo. Cristo teria um lugar privilegiado, teria sido criado antes de todas as criaturas, o mundo poderia mesmo ter sido criado por ou através dele, a sua substância até poderia ser divina, mas…não era Deus!


Mas o que interessa uma questão tão aparentemente espúria à nossa vida actual, ao dia a dia em que temos que ganhar a vida e sobreviver aos impostos do Estado? Para compreender isso teremos que constatar que civilização foi construída sobre essa ideia: o maometanismo!


Como dizia Chesterton, o homem não é apenas economia, ele também não suporta viver fora da verdade, da sabedoria. O homem não vive só de pão, mas também da palavra, do verbo. E as grandes civilizações decaem por esquecer coisas óbvias. Os grandes inimigos do ocidente actual não são estes muçulmanos que nos ameaçam com bombas ou com facas. O ocidente é muito mais desenvolvido, rico, multiforme e bem armado que o Islão. O problema do ocidente é a sua própria decadência, aquela humildade espúria de se auto-culpabilizar e de se desacreditar. Quando a tentativa de simplificar e racionalizar os mistérios da fé vence numa sociedade, perde-se a ligação entre a natureza humana e Deus, que é a substância da Encarnação. Perde-se a dignidade humana, embora permanecendo retórica. Perde-se a autoridade de Deus e a noção de prestar contas. Cristo aparece como um homem ou como um mito. O que se reduz a unitarismo acaba como paganismo.


“Ouçam, ó cristãos, Jesus é apenas um homem, homem entre homens, filho de Maria!”, diz a mesquita de Omar.


Essa recusa de compreender o aprisionamento do infinito no finito, essa recusa de um Deus humano, demasiado humano, é também uma recusa de casta. No império romano, da elite orgulhosa da sua tradição pagã, dos intelectuais que recusavam o incompreensível e não queriam misturas com a populaça, do exército que não podia aceitar uma igual condição para todos os seres humanos, do imperador que via recusada a sua infalibilidade e natureza essencialmente divina, e via crescer uma organização complexa que se auto-administrava e nomeava os seus próprios líderes, uma espécie de Estado dentro do Estado, com uma moral intransigente, a Igreja.




Contrariamente ao comumente acreditado, Constantino, que decretara a liberdade religiosa em 313, tinha mais simpatia com o arianismo do que com as ideias de Atanásio. Seria baptizado apenas na véspera da sua morte, em 337. Dentre os seus sucessores, os seus filhos eram arianos e Juliano, o seu sobrinho, seria um perseguidor e assassino de cristãos. O Senado e o Exército também abominavam essa nova religião e tinham simpatia pelo arianismo. Após o concílio de Niceia, Constantino chamou Atanásio, bispo de Alexandria, para re-admitir o excomungado Arius na Igreja. Atanásio recusou. Foi deportado. Em 367, um Atanásio de 70 anos de idade seria deportado pela quinta vez. Para a Gália, uma parvalheira de brutos e atrasados semi-selvagens. O deportado Atanásio converteria a Gália, o embrião do Ocidente. Atanásio morreria como o maior homem do seu tempo.


A diferença que ele cavou entre um ocidente onde o arianismo morreu e um oriente onde ele viveria o tempo suficiente para influenciar Maomé, reside na diferença entre o que aconteceu a oriente e a ocidente. O império romano do ocidente caiu com as supostas invasões bárbaras, que foram mais assimilações progressivas e autonomias crescentes. Os chefes do exército passaram a ser convertidos directamente do paganismo e não existia legado ou “ascendência”. O pedantismo morreu, o Ocidente nasceu. Deus era uma família, Cristo era Deus Ele-mesmo que se fez homem como nós.






António Campos

(O autor recomenda vivamente a leitura de The Great Heresies de Hilaire Belloc que serviu de base para este texto)