sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Socialismo: Crítica




Economia

- A noção de valor: Marx ligava a sua teoria de valor a tempo de trabalho. No entanto ignorou
factores fundamentais, como consequência da sua filosofia: o mérito no desempenho, a qualificação, a ideia inovadora, o valor de assumir risco e a arte. A arte é absolutamente desnecessária como objecto material. Em poucos casos, como na arte, o valor final depende menos do tempo gasto pelo trabalhador na manufactura.

- O trabalho alienado: o trabalho supõe a separação entre o produtor e o produto do seu trabalho como condição de continuidade de desempenho. O agricultor vende produtos agrícolas para investir em máquinas, o artista vende as suas obras para obter as condições do seu viver diário e notoriedade. A separação do produto do seu trabalho não é factor de limitação do trabalhador; pelo contrário é um factor que lhe oferece novas possibilidades e amplia os seus horizontes.

- A arte: a arte depende da liberdade e da inovação. Não pode ser o Estado a definir o que é arte e qual artista subsidiar, de outro modo o artista cessa a sua condição de artista e passa a ser um funcionário. Este é um erro que não é exclusivo do socialismo. Uma obra de arte não serve qualquer propósito prático e, no entanto, o seu valor aumenta ao longo do tempo. O que a distingue é a sua particularidade, algo descartado pela mente colectivista.

- O Estado: Nada como o socialismo evidencia tão completamente que o Estado não somos todos nós, uma falácia tão ao gosto dos políticos contemporâneos para justificarem a sua moral iníqua. A nação somos todos nós, o Estado não. O Estado é uma organização política, construção das elites segundo valores que lhe são próprios, burguesas e intelectuais. Em geral razões de Estado significam que essa elite tem uma lógica de sobrevivência própria e não de serviço ao povo ou a homens concretos. O Estado moderno encontra-se refém das sociedades secretas - é a "Ashlar" de Albert Pike, a pedra polida. Os iniciados deverão esquecer tudo o que os liga à sua vida (mulher, filhos, amigos, etc.), i.e., morrer para esta vida e renascer para uma nova vida como "aperfeiçoados". Em certas organizações o iniciado entra mesmo para uma urna e volta a sair, numa metáfora do significado.

- Estado e liberdade: Um Estado que detém os circuitos de produção, emprego, distribuição e comercialização, representa a maior tirania alguma vez construída por uma sociedade humana, uma vez que possui o destino de cada homem inteiramente na sua mão. Perdida a propriedade, o sentido de risco e inovação, a devida recompensa, os indivíduos perderão a sua motivação para o trabalho e para a produção, conduzindo à derrocada da economia. Além disso, uma economia de planeamento central não se consegue adaptar à realidade contingente, local e temporalmente. A produção existe ao mesmo ritmo e desligada das reais necessidades das pessoas concretas, rígida e alienada, obedecendo apenas a relatórios de funcionários, que serão viciados de acordo com a conveniência. Não existindo relação entre a procura e a oferta, por meio do preço, tudo se torna fictício como se a vida das pessoas fosse apenas o que se vê escrito num pedaço de papel por um funcionário do partido único.
O marxismo esquece que o trabalhador é simultaneamente consumidor. Numa sociedade capitalista, o consumidor determina a natureza dos produtos que prefere consumir, orientando por sua vez a actividade do produtor e o seu sucesso. Desse modo, o trabalhador norteia a actividade do proprietário dos meios de produção.

A moral: Abolido Deus, a moral fica entregue ao Estado; abolido o multipartidarismo é impossível a crítica, uma vez que o partido único não permite oposição. Um governo que tudo fornece é incapaz de fornecer uma oposição. A moral torna-se relativista e em permanente mudança conforme as intenções do Estado. Sem crítica não existe aperfeiçoamento. Um Estado socialista está em grande medida condenado à estagnação tecnológica. É uma ironia. A sociedade cuja dialética mais dependeria do progresso é aquela onde o progresso é menos possível.
Grande parte do progresso económico de uma sociedade depende do investimento privado e do investimento estrangeiro. Uma sociedade fechada a ambos não só perde duas importantes molas de desenvolvimento e inovação, como perde as receitas resultantes de impostos que poderiam ser aplicados em prol do bem comum.





Filosofia e Teologia – O materialismo dialético


O socialismo resulta da ideia fundamental de Feuerbach de que o único Deus que existe é o homem e que toda a história de Deus é um antropomorfismo. Deste materialismo resultam ideias fundamentais:

1 – O homem é uma máquina. Mas convém não esquecer a questão fundamental de “quem dirige a máquina?”. Um automóvel tem vários órgãos que explicam o seu funcionamento e pode ter até um computador de bordo. Mas alguém tem que conduzir o automóvel, alguém tem que colocar a equação no computador. Mais importante ainda, alguém teve que fazer o automóvel porque um automóvel não se faz a si próprio.

2 – A segunda ideia é de que o pensamento e as ideias resultam de secreções (neurotransmissores) no cérebro apenas. Os materialistas adoram simplificações. Claro que esta noção não explica como têm os seres humanos inspiração tão diferente, possuindo basicamente as mesmas estruturas cerebrais, as mesmas áreas, e os mesmos neurotransmissores. Os homens não respondem de forma igual a estímulos semelhantes – basta observar o aproveitamento dos alunos numa escola. Contrariamente ao que dizia Bertrand Russel, a diferença de reacção entre uma pedra e um homem não é apenas de grau, é de qualidade. Nas pedras existe uma relação causa-efeito clara; no homem nem sempre é assim, o mesmo estímulo pode originar respostas esperadas ou diferentes e inesperadas.

3 – As máquinas portar-se-iam como um organismo em evolução determinística, como se tivessem vida própria e moldassem as ideias humanas – são as forças de produção material ou meios de produção – do ponto de vista económico podem chamar-se meios de produção, mas do ponto de vista filosófico só podem ser chamadas máquinas ou forças de produção material, como veremos. A ideia de Marx era a de que as forças de produção material é que condicionavam o evoluir histórico. O moinho manual teria produzido o feudalismo; o moinho motorizado teria produzido o capitalismo; outras máquinas viriam que produziriam o socialismo. Marx acreditava que as máquinas evoluiriam deterministicamente, afectando a mente do homem como se fossem organismos – é o materialismo dialético. Mas Marx rejeita que as máquinas sejam, pelo contrário, produto das ideias e da inteligência humana. Marx, tal como Hegel, julga que tudo o que é particular é uma abstracção. O homem é um acidente, um micróbio, um espelho; a realidade são as forças de produção material.





A forma como Marx explica as ideias de Locke como de origem em interesses de classe contradiz a sua convicção de que as ideias humanas surgem apenas a partir das forças de produção material. Para Marx um ser humano é obrigado a pensar, pelas forças de produção material, de tal forma que as suas ideias reflictam os seus interesses de classe. Os interesses são independentes da mente e das ideias.
Cada classe social é uma espécie de ser orgânico que reflecte nas suas unidades constituintes, i.e. cada indivíduo humano, basicamente as mesmas ideias. Os diferentes indivíduos dentro da mesma classe social são apenas acidentes, o organismo verdadeiro é a classe social. A heterogeneidade de pontos de vista (interesses) dentro de uma classe social apenas revela as características particulares da classe social. Se não forem o indivíduo a, b ou c a exprimirem esses pontos de vista, fá-lo-ão os indivíduos x, y ou z, uma vez que os interesses são espelho da classe social e não dos indivíduos componentes. Como os interesses existem independentemente das ideias, as ideias não são verdadeiras. Então a ideologia exprime apenas o pensamento de cada classe. Não existe uma lógica comum a todos os homens; cada classe social possui a sua lógica.


Para Marx a evolução das máquinas (forças de produção material) é a mesma coisa que a evolução do espírito ou da História para Hegel. A História teria sempre o mesmo percurso, fosse com os protagonistas que conhecemos ou com outros. O mérito do protagonista é apenas expressar o sentido da História ou, neste caso, expressar os interesses de classe, como se fosse um médium, uma correia de transmissão.

A influência darwinista fez Marx pensar que o homem era apenas um animal com instintos e que a evolução das máquinas faria todo o tipo de trabalho, sem especialização humana – no futuro todos os homens seriam generalistas. O materialismo dialético despreza o papel da mente humana e vê as máquinas como a origem do desenvolvimento histórico. A mente humana faria apenas eco do desenvolvimento das máquinas que se portariam como um organismo colectivo inteligente. Marx sempre ignorou que as máquinas têm origem na mente humana! Pelo contrário, afirmava que as máquinas é que dirigiam a mente humana. A matéria seria um organismo inteligente e as máquinas seriam o seu alter ego.





As ideias fundamentais de O Manifesto são “classe” e “conflito de classe”, mas Marx nunca definiu o que era classe social! No terceiro volume de O Capital que ficou incompleto por Marx ter parado de o escrever muitos anos antes da sua morte, apenas se refere o que não é uma classe.

A única ideologia verdadeira existirá apenas quando não houver classes sociais. Como a única classe que subsistirá, no mundo em que não houver classes sociais, é o proletariado, as ideias actuais do proletariado que se encontra na dialética socialista, as vanguardas iluminadas, são as únicas que exprimem a verdade. Não existe nenhuma lógica verdadeira, excepto a do proletariado iluminado que é a lógica do futuro. Os nacionais socialistas pegaram nesta ideia para exprimir a ideia que cada raça tinha a sua lógica, mas só a raça ariana possuía a lógica verdadeira…É o problema da lógica: depende da premissa!

Num panfleto que não teve a coragem de publicar em vida chamado Valor, Preço e Lucro, Marx afirmava que os sindicatos não se deviam bater por melhorar as condições dos trabalhadores, mas sim por incutir neles uma mente revolucionária que só seria alcançada pela degradação das condições de vida e de trabalho. Esta crítica de Marx, um homem que não pertencia ao proletariado, deita por terra toda a essência das suas ideias. O pai criticava a classe que não pode errar!


Toda a gente depende de ideologia, mas segundo Marx existe uma classe de homens, os intelectuais “independentes” que possuem um especial privilégio – o de descobrir verdades que não são ideologia. Esta ideia foi o substrato da sociologia do conhecimento de Karl Mannheim, desenvolvida a partir das ideias de Hitler.

Portanto, as máquinas não resultam das ideias do homem, os interesses de classe é que geram ideias (que é o contrário de dizer que o homem pensa de acordo com os seus interesses), só há uma classe social certa, todos os indivíduos da classe social certa pensam da mesma maneira e existe apenas uma ideia verdadeira – é um totalitarismo mecânico!

Foi efectuado um esforço de simplificação para que esta filosofia fosse apreendida pelas “massas”. Tudo depende de condições económicas. A história humana é a história das forças de produção material. A evolução das máquinas muda tudo o resto (a superestrutura).

Mas Marx sempre recusou a discussão intelectual. Em vez de tentar desarmar os argumentos dos seus oponentes, sempre respondeu que o que era necessário era expor a sua origem burguesa. Os opositores às suas ideias seriam apenas burgueses.

Isto significava que ninguém de origem burguesa estaria em condições de escrever algo sobre o socialismo, o que conduziu à moda de todos os escritores tentarem provar a sua origem proletária. É estúpido pensar que as pessoas inovam a pensar em coisas meramente práticas e não na verdade das coisas. Em que coisa prática teria pensado Newton quando levou com a maçã, ele que foi um entre milhares que foram atingidos por maçãs? Ah, claro, esquecemos que Newton também tinha um passado “de classe”, portanto provavelmente tudo o que disse não corresponderia de modo algum à verdade.




É uma hipocrisia porque as ideias de Marx surgem de um homem que é filho de um famoso advogado casado com a filha de um militar de alta patente prussiana, irmã do chefe da polícia de toda a Prússia. Engels era dono de várias fábricas na Prússia e de uma fábrica em Manchester; era conhecido por participar nas famosas caçadas à raposa em Inglaterra com a sua jaqueta vermelha, um conhecido passatempo dos ricos. Engels recusou casar com a sua companheira porque ela era mais pobre do que ele. Saint-Simon, o fundador do socialismo francês era descendente de uma família famosa de duques e condes. As ideias de Marx e Engels não surgem a partir dos interesses do proletariado, portanto são falsas pelos seus próprios parâmetros. Se como diz Marx, na etapa final do socialismo alguns burgueses se juntam ao proletariado, isso não tem efeitos retroactivos nas suas ideias e desautorizam a sua lei filosófica geral.

Se os proletários pensam necessariamente segundo os “interesses” ou “espírito” da sua classe, qual o significado de haver dissensões entre eles?

Quando existem dissensões entre o proletariado estamos perante “traidores sociais”. Será um “eu discordo daquilo que penso!” É um conceito semelhante ao dos racistas: se todos os alemães têm necessariamente as mesmas ideias, o que dizer de típicos alemães que não expressam essas ideias? E quem decide sobre quem é portador das verdadeiras ideias alemãs?
A voz interior! É a última instância. Tal só pode conduzir à intolerância e à guerra – é a genética do socialismo.

Existiam dois grupos de russos que se consideravam proletários: os bolcheviques e os mencheviques. O único modo de esclarecerem as diferenças foi pela guerra e aniquilação. Os bolcheviques venceram. Entre os bolcheviques houve diferenças de opinião entre Trotsky e Estaline. O meio de resolver as diferenças foi a purga. Trotsky foi assassinado em 1940.


Augusto Comte foi secretário de Saint-Simon de 1817 a 1824. Dizia que existia apenas um princípio absoluto, o de que tudo é relativo. Criou a “Religião da Humanidade” em que descartava a teologia e a metafísica. Dizia que a liberdade tinha sido útil no passado porque lhe tornara possível publicar os seus livros; agora que estavam publicados não existiria mais necessidade de liberdade. Comte tem o lema da sua “seita”, os positivistas, na bandeira da maior nação católica do mundo: “Ordem e Progresso”.

Em 1917 Nikolai Bukharin escreve que a liberdade tinha sido necessária no passado porque os bolcheviques se encontravam na oposição e necessitavam da liberdade para alcançar o poder. Conquistado o poder, não existiria mais necessidade de liberdade. Bukharin foi executado em Moscovo na purga de 1938. Se Bukharin vivesse no mundo ocidental teria possivelmente a liberdade de escrever panfletos idiotas sobre como não necessitamos de liberdade…

Marx sempre considerou utópicos os que pretenderam explicar o socialismo, tornando-o popular. O paraíso futuro não se explica, constrói-se. Para Marx o socialismo era inevitável, nada tinha que ver com a conquista das pessoas. Mas em 1859 forma o partido socialista que advoga o terror revolucionário e a implantação do socialismo pela infiltração e pela força, pelo derrube de governos legítimos por meio da subversão social. Marx e Engels decidiram dar uma ajudinha ao determinismo…





Conclusão


Não existiu um levantamento do proletariado em todas as nações, mas sim estado contra estado na primeira e segunda guerras mundiais. Os proletários de todo o mundo têm menos em comum que os homens alemães ou portugueses entre si, independentemente da classe social.

Os trabalhadores dos países industrializados não ficaram mais pobres por via do seu trabalho alienado, mas mais ricos. O socialismo não triunfou nas nações mais desenvolvidas ou mais instruídas, mas na atrasada e rural Rússia, após uma guerra civil de 3 anos, com o apoio da Alemanha (em guerra com a Rússia) e do capital internacional. Nos dias de hoje triunfa apenas na atrasada e pobre América Latina e no Extremo Oriente mais pobre. E é muito questionável que o homem necessite mais de valores materiais do que de valores imateriais, que aprecie mais a sua empresa do que a sua mulher, que dê mais facilmente a vida por um iluminado membro do partido do que por um seu filho, que prefira sempre obter mais um par de botas do que assistir a um concerto musical.

O marxismo é uma coisa do passado. Ficou terminado em 1859, ano em que Marx e Engels cessaram de acreditar na inevitabilidade do comunismo por meios pacíficos e passaram a advogar o terror. Lenine limitou-se a atacar adversários e a contribuição de Estaline foi nula. Pelos próprios parâmetros de Marx, o marxismo deve ser descartado. Mas para quem considera que só olhando o passado se pode precaver o futuro, o marxismo deve ser estudado, para se entender como a mente humana pode tão facilmente resvalar para o absurdo.

Existe uma outra razão: o marxismo (e os seus crimes) teve sempre uma atitude de tolerância por parte das elites. Podemos pensar se a idolatria das máquinas, a educação de um ser humano como máquina, a clonagem humana, o controlo de todas as circunstâncias da vida particular por parte do Estado, a concentração da propriedade, o combate à religião revelada e a uma moral universal, não continuarão na ordem do dia...




(Parte significativa deste texto é uma reflexão e sinopse sobre as aulas de Ludwig von Mises).


António Campos

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O Socialismo: Introdução



Escrevo sobre o socialismo a partir do título de “traidor social”. Já me tinham chamado várias coisas, desde agente económico, consumidor e contribuinte, mas não escondo a vaidade que sinto pelo título que os marxistas me atribuíram. Oriundo das classes trabalhadoras, desenvolvi uma mente burguesa. Hoje introduzo o socialismo para iniciar a definição da política de Chesterton.


O Chesterton político é intrinsecamente democrático. A sua convicção assenta no facto de que os homens são todos irmãos porque são “o milhão das máscaras de Deus”. Compreende a política assente na família, na localidade, no patriotismo, na propriedade e na liberdade individual. A sua simpatia pela revolução francesa assentou no reconhecimento da venialidade da Igreja francesa, na arrogância da nobreza e na decadência moral da sociedade. A horrível distribuição de propriedade nas ilhas britânicas, estabelecida após Henrique VIII pelo confisco, ainda hoje na mão das mesmas famílias, que entram nas universidades de Cambridge e Oxford a seu bel-prazer, contribuiu também para a posição anti-Burke de G. K. Chesterton. A sua perda de entusiasmo pela revolução francesa residiu no reconhecimento que ela fora em grande medida resultado da acção das sociedades secretas que se limitaram a substituir uma aristocracia, a nobreza, por uma outra igualmente detestável, a burguesia. Como ideias gerais, poderemos resumir afirmando:

1 – O sistema político é mau, mas nele deve participar-se porque este mundo material é bom e existe a necessidade de fazer a diferença.

2 – A política moderna encontra-se encerrada numa dialética de erro: de um lado progressistas (liberais e socialistas) e do outro lado conservadores.

3 – O sistema político capitalista, liberal ou conservador, característico do ocidente, é muito melhor do que o socialismo.

4 – É necessário ser activo para repor as coisas correctas e não apenas ser conservador, abandonando-as numa corrente contínua de mudança, onde se degradam continuamente. E não adoptar os erros dos outros como virtudes.

Desse ponto de vista, Chesterton critica o conservadorismo de Burke, assente na ideia conservadora britânica que resulta de uma interpretação whig da História (monetarismo, liberalismo e burguesia mercantil). Para um conservador, como afirma Pereira Coutinho, a acção depende das circunstâncias e os resultados demonstram a bondade da acção do conservador. Trata-se de um pragmatismo. Ou, como dizia Vítor Bento, do ponto de vista moral, a política basta-se a si própria. Trata-se de uma posição bastante diferente da de um dos mais negligenciados (e brilhantes) académicos portugueses vivos: Jaime Nogueira Pinto.

Para Chesterton não é assim. Da mesma forma que uma moral preside à acção humana, igualmente uma moral deve presidir à mais nobre acção humana, a política, porque mais consequências implica para o destino das famílias. Uma moral fundada numa religião que está na base da civilização ocidental, o judeo-cristianismo, e no direito romano. Será mais uma linha social-cristã de Robert Schuman e Konrad Adenhauer, continental, não britânica. Como afirma Jaime Nogueira Pinto, no seu livro Ideologia e Razão de Estado, trata-se da política do Sermão da Montanha versus Razão de Estado, que tem feito bascular a política europeia na idade contemporânea.

Para Chesterton, foram o liberalismo e o conservadorismo que geraram a implantação do socialismo. Trata-se dos famosos Hudge e Gudge. Os países onde o socialismo se tornou mais popular foram aqueles onde a distribuição da propriedade e os direitos do trabalhador são mais aberrantes; onde a ignorância e o atraso são uma chaga social.





Chesterton não se referia obviamente ao apoio financeiro e influência que o primo de Karl Marx, Lionel de Rothschild, deputado pela cidade de Londres, forneceu para a publicação na Londres de 1867 do primeiro volume de Das Kapital (Os segundo e terceiro volumes seriam publicados por Engels já após a morte de Marx). Marx descendia de uma longa linha de rabis e foi educado a odiar o cristianismo. Frequentava o pub Red Lion no Soho, onde o seu primo o instou (e a Engels) a escreverem o que seria O Manifesto. Marx era adepto do comércio livre e do império britânico, porque quer um quer outro demoliam a pequena economia e as diferentes nações e culturas. Como bónus, favoreciam a centralização da economia num pequeno número de mãos e criavam um proletariado pobre e espoliado da propriedade – é a doutrina do “quanto pior melhor”. Desde sempre Marx fez parte de uma linha de pensamento judaico que desistiu de um messias-homem e vê o povo judeu como messias-povo. Esta linha judaica não é religiosa mas laica, frequentemente influente nas sociedades secretas e teosóficas, como a Liga dos Justos ou actualmente o B’nai B'rith.

Duas afirmações de Marx expressam esta convicção:

“O judeu emancipou-se não só ao ganhar poder financeiro, mas sobretudo porque por ele e mesmo sem ele o dinheiro se tornou um poder mundial e o espírito prático judaico se tornou o espírito prático das nações cristãs. A emancipação dos judeus tornou-se tão ampla que os cristãos se tornaram judeus. Sim, o domínio prático de judeus sobre cristãos atingiu o seu zénite na América do Norte.”

“Qual era a base real da religião judaica? Sentido prático, egoísmo. O deus do sentido prático e do egoísmo é o dinheiro. O dinheiro é o deus ciumento de Israel diante do qual nenhum outro Deus subsiste. O dinheiro faz desaparecer toda a propriedade do homem transformando-a em capital financeiro. O deus dos judeus transformou-se no deus do universo. O deus verdadeiro dos judeus é o dinheiro. O seu deus é apenas uma nota de crédito ilusória.”

Como se vê nada disto tem algo que ver com os nossos irmãos judeus, monoteístas, que amam o Senhor Eterno.


Uma vez que toda a modernidade é pautada pela interpretação marxista da História, (as ideias de Marx e a sua filosofia dominam a nossa época, os nossos intelectuais, a nossa cultura e as nossas universidades), sobretudo seguindo as ideias expressas nos livros de Herbert Marcuse, Theodor Adorno, Ernst Blöch e António Gramsci, é essencial uma introdução geral ao pensamento marxista.
Relativamente à obra de Marx, que intitulou de “socialismo científico”, deve dizer-se que nada tem de científico, já que não se baseia em provas ou factos, mas em ideologia, em lógica pura, cujas conclusões dependem da veracidade (questionável) das premissas. O determinismo hegeliano perpassa toda a construção marxista: a crença num futuro único e fixo como ponto de chegada, o comunismo; a crença no fim da História; a crença numa luta dialética de classes; a crença na consciência infeliz; a crença na consciência de si e no trabalho alienado; o entendimento da sociedade e da História como um organismo; a crença na insignificância do que é particular; a crença na superioridade intelectual e de julgamento daqueles que conhecem o fim da História; a crença na guerra virtuosa e na existência de übermensh e untermensch (Marx chamar-lhe-ia a necessidade do terror revolucionário e os sub-humanos eslavos), etc. Curiosamente, Lenin, Trostsky e Zinoviev, seus herdeiros ideológicos sempre esconderam a russofobia de Marx, mas aplicaram as suas ideias, assassinando milhões de eslavos.


É possível que uma grande parte dos socialistas sejam bem intencionados. Mas todos têm o detestável impulso para controlar os outros. Esse impulso resulta de duas atitudes espirituais: a soberba e a inveja.

O orgulho resulta na convicção de se encontrar no fim da História e, consequentemente, na posse da verdade. Na assumpção de que quem não pensa do mesmo modo tem algum grau de défice intelectual. Nada se sobrepõe ao enorme orgulho de quem pensa ser superior aos outros. É de acreditar que se o comunismo algum dia fosse popular, os intelectuais tornar-se-iam todos reaccionários. Trata-se de uma fé mais dogmática do que a fé em dúvida permanente que caracteriza o cristianismo. Trata-se da aplicação prática da afirmação de Kant de que nenhum homem pode interpretar correctamente a História se não tiver a pretensão de a ver “com os olhos de Deus”. Hegel pensava ter os olhos de Deus, Marx também. Um chamou à História o desenvolvimento da Mente colectiva (Geist), o outro chamou-lhe o desenvolvimento dos meios de produção. Para nenhum deles o indivíduo particular tinha qualquer importância. Se não houvesse um Newton, outro faria a mesma coisa porque estava pré-determinado que fosse assim.


A inveja resulta da convicção de que possuir propriedade é sinal de fraqueza de carácter, própria dos inimigos do socialismo, uma vez que o verdadeiro vanguardista abdica da propriedade e da liberdade em favor da “verdade”. Claro que devido à sua superioridade intelectual o comunista não é tolo; enquanto não se constrói o socialismo, numa sociedade capitalista o socialista poderá ser o mais feroz capitalista.

Outra característica do socialismo é o desprezo pelo passado. No passado está a mente burguesa, no futuro está o comunismo. Ao desprezo pelo passado junta-se a idolatria pelo futuro. A ciência e tecnologia levar-nos-ão ao comunismo. Tudo o que localiza o indivíduo ao presente concreto e à tradição deve ser combatido, porque conduz à mentalidade burguesa: a fé religiosa, o patriotismo, a família. A mulher deverá comportar-se como outro homem, negando a sua natureza de esteio da família e da sociedade burguesa e sendo um agente do “progresso”.




A igualdade é o seu lema. Exactamente o que é mais anti-natural na natureza, que assenta na diferença e diversidade, tal como uma família. Esta heresia da igualdade é uma projecção do valor cristão da igualdade de dignidade de todo e qualquer homem como imago Dei. É exactamente por isso que é frequente ouvir dizer aos marxistas que acreditam no Cristo histórico, que Jesus foi o primeiro marxista e que o cristianismo primitivo foi o primeiro ensaio do comunismo.

Nada poderia ser mais errado.

Cristo deixou claro para o jovem rico que abdicar dos bens teria que ser uma acção voluntária; foi Zaqueu quem disse que daria um terço do que possuía aos pobres e não foi Cristo quem o instou a tal. Cristo não quis acabar com os pobres. Quando a mulher derramou o frasco de perfume de nardo puro, originando a indignação dos apóstolos alegando ser um desperdício de dinheiro que poderia ser encaminhado para os pobres, Cristo respondeu: “Pobres sempre os tereis entre vós!”

Relativamente ao cristianismo primitivo, a equalização ao comunismo é igualmente um sofisma:

- A partilha era voluntária. Não era igual, mas conforme as necessidades de cada um. Era uma forma de caridade. Caridade é a atitude mais odiada pelos marxistas que julgam ter direito a tudo.

- O apóstolo Paulo vivia muitas vezes da ajuda de cristãos abastados ou no mínimo remediados.

- Os mosteiros eram centros de propriedade onde todos estavam voluntariamente e voluntariamente trabalhavam. A administração era directa; não existiam funcionários que usavam o produto de trabalho dos monges.


Marx estava dogmaticamente convencido ter descoberto as leis inequívocas e imutáveis do desenvolvimento histórico humano, que inevitavelmente, deterministicamente, conduziriam ao triunfo do socialismo e ao triunfo do comunismo. É uma espécie de teoria da evolução histórica e sociológica, um darwinismo histórico e social. Esta atitude tinha natureza gnóstica e tem relação com a sua participação em sociedades secretas e teosóficas. Com efeito, já o seu pai, Hirschel Mordechai, tinha estado em contacto com o Grande Oriente de França e em 1813 tornara-se maçon da loja da Estrela Hanseática em Osnabrück. Tal como tem natureza gnóstica a ideia de que o homem iluminado resulta de uma morte e renascimento. Aquilo a que os homens dão valor, a pátria, a família, a fé religiosa, a tradição, mais não são do que elementos transitórios e sem valor, porque condicionados por uma época, da infra-estrutura em desenvolvimento histórico. É a noção hegeliana de que nada é, tudo se torna. Portanto, tudo aquilo que o homem toma como valores fundamentais, nada mais é do que um eco do passado e um condicionamento pelo espírito da época.


O socialismo seria o processo dialético (uma dialética em negação como em Hegel), a antítese do capitalismo, para alcançar a síntese última, o comunismo: camponeses e artesãos detêm os meios de produção (tese) → vem o capitalista e apropria-se de tudo (negação) → o proletariado de todo o mundo revolta-se e estabelece o comunismo (síntese). Esta seria a lei imutável do desenvolvimento histórico - é isto o socialismo "científico". No estado intermédio do socialismo, o chamado PREC (processo revolucionário em curso), existiria uma ditadura do proletariado. Esta ditadura seria necessária porque:

- era necessário o confisco da propriedade,

- era necessária a supressão da liberdade individual e da democracia burguesa (pluripartidarismo),

- era necessária a catequização dos “incultos” para adquirirem “a luz”, o mais alto estado de consciência, começando pelo proletariado,

- era necessário o extermínio dos não catequizáveis e dos povos inferiores, os eslavos, por meio do terror revolucionário, tão “maravilhosamente” interpretado por Lenine, Trotsky, Zinoviev e pelo carniceiro Stalin.

Para Marx, o que torna este processo infalível é o de que o desenvolvimento tecnológico não é mais do que a componente aparente de um processo aparentemente invisível mas certo, em que deterministicamente a História passa por estádios intermediários até atingir o comunismo.

A classe social espelha a propriedade dos meios de produção. Locke enfatizava o capital e desvalorizava a propriedade agrícola; os marxistas esconjuram a propriedade dos meios de produção mas são bastante omissos quanto à propriedade financeira…
O lucro mais não seria do que uma expropriação, por parte do empregador, do produto do trabalho do trabalhador – o trabalho alienado de Hegel. Por esse motivo, as duas classes, empregadores e empregados estariam em conflito permanente. A síntese deste conflito dialético é óbvio aos olhos de Marx, numa adivinhação do futuro: o proletariado das nações ocidentais capitalistas viverá cada vez pior e finalmente revoltar-se-à, levantando-se numa internacional operária, contra os seus outrora patrões, estabelecendo uma ditadura do proletariado à escala global. Será assim porque não pode ser de outro modo – é um determinismo.

Cessará a orientação pelo lucro e a livre iniciativa será substituída pela orientação central do Estado, detentor de todos os meios de produção por meio do confisco. O aumento de produção e o avanço tecnológico levaria a sociedade comunista a um nível de bem estar nunca antes experimentado. Seria um céu na terra. O movimento marxista seria assim uma forma de messianismo.







António Campos