sábado, 21 de setembro de 2013

KANT PARA PRINCIPIANTES - O Problema do Conhecimento



“Não é o sujeito que, conhecendo, descobre as leis do objecto, antes é o objecto que, ao ser conhecido, se adapta às leis do sujeito”, Kant.



Para Kant não existe qualquer possibilidade de conhecer ou localizar a verdade. Parte do estreito universo da sua razão para dizer que é o homem que deve definir onde estão os limites do conhecimento. 


“Se dissermos que Deus não existe, não há nesse juízo a mínima contradição.” 
Estranha afirmação para quem diz não ser possível aceder à verdade…Todo o cepticismo básico assenta numa certeza: a certeza de que se duvida.

“O culto cristão não é mais importante do que qualquer outro culto religioso.”9
Kant retira Deus do centro da vida e coloca lá o homem. Mas ao fazer cessar a fé universal, pretende construir algo em que se possa acreditar, algo em que se possa confiar. Pretende construir um sistema fiável que defina até onde se pode acreditar na razão.

Não há dúvida que qualquer definição de limites é um dogma, é uma conclusão, logo Kant é um dogmático que se ocupa de substituir uns dogmas por outros. A crítica da razão pura afirma os limites do conhecimento humano. É a revelação de Kant…a sua bíblia. Com ela, Kant trata de se propor como marco legislativo e moral (na sua aplicação prática) para a humanidade. (Desde que aceitemos os seus pressupostos).



A QUESTÃO METAFÍSICA


Se queremos colocar em causa uns limites e construir novos limites ao conhecimento humano, uma das primeiras questões a considerar será a questão metafísica.
A metafísica, como definida por Aristóteles, trata do estudo da realidade, não apenas da natureza, mas como um todo. Trata-se, em suma, do estudo e teorização da questão do “Ser”.
O passado pietista, do qual só guardou más recordações, predispôs Kant a tomar uma atitude geral contra a religião.

“Nenhuma confissão de fé, nenhum apelo a nomes santos, nenhuma observância de cerimónias religiosas, pode ajudar a ganhar a salvação.”

“Considero a oração como a adulação de Deus.”9

Como reitor da universidade de Königsberg, Kant estava sempre “indisposto” quando era solicitado para participação em acontecimentos oficiais da universidade que incluíam cerimónias religiosas.

O problema do conhecimento do ser passa muito pelo conceito alma-corpo ou mente-cérebro. Outro modo de considerar o problema é afirmar que a cada efeito preside uma causa, pelo que existe necessariamente uma causa primeira.

O conceito de presença equivale ao conceito de Ser Absoluto, de Essência Divina, de Verdade. Para Kant, o conceito de presença implica também o conceito de ausência: relativa, no caso do mundo fenomenológico ou corpóreo, absoluta no caso do Inferno. 3


Para Kant, o Ser Presente implica o Ser Ausente, ou seja, a ausência não se distingue da falta de presença, pelo que não se pode concluir pela existência autónoma de nenhuma delas. A Presença não se pode representar porque ela equivale à ausência da Ausência. Daqui o apoio de Kant à controvérsia que separou as partes, no cisma do Ocidente, sobre a importância da missa e a proibição de imagens sacras. O absoluto não se pode representar porque, caso exista, existe fora do conceito de presença. Para Kant, “a alma é a substância pensante como princípio de vida, na matéria”.

Esta concepção maniqueísta enferma de um erro fundamental grave: admite um ser tão negativo que possa “não ser”. Isto não respeita o princípio da não contradição, uma das pedras-base da razão, que Kant parecia defender, nem tão pouco o conceito expresso por Wolff: “uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo!” Até um ser tão negativo que encerre em si todas as antinomias da virtude, terá que compreender algum grau de virtude, isto é, a existência, pois de outro modo não existe. Este é um princípio inultrapassável. Algo não pode “ser” mau e simultaneamente não existir. A alternativa ao Bem existe: “é” o Mal.10

Kant afirma que para a inferência da existência de Deus seria necessário um intelecto de tipo intuitivo. No entanto, para Kant, o intelecto humano é apenas de tipo discursivo, baseado em associações lógicas de dados obtidos por experiência, avançando por comparações e deduções. Como Deus não pode ser colocado no tubo de ensaio, não existe qualquer possibilidade de afirmar a sua existência.


A REVOLUÇÃO COPERNICIANA DE KANT


É de salientar a importância das influências que Kant sofreu (o que demonstra que a verdadeira neutralidade nunca existe na razão: existe sempre algo a priori que varia de homem para homem):

- O mecanicismo de Isaac Newton11.
- A obra de Lineu que contraria o criacionismo12.
- A influência determinante de Jean Jacques Rousseau e da Revolução Francesa.
- A influência dos racionalistas Leibniz (1646-1716) e Wolff (1679-1754) e dos empiristas, Berkeley (1685-1753) e Hume (1711-1776), dos quais Kant pretendeu fazer a síntese - a chamada revolução coperniciana de Kant:13

Classicamente considerava-se que a forma de obter conhecimento tinha o seu centro no objecto e que era o sujeito que girava em torno do objecto. Para Kant a forma de obter conhecimento centra-se no sujeito, i.e., o homem, e é o objecto que gira à volta do sujeito, “aparecendo”. O fundamento do objecto está no sujeito. Eu só conheço aquilo que eu próprio coloco no objecto. O “Eu penso” é o princípio supremo do conhecimento humano14.

Pela sua centralidade no observador, i.e., o homem, teria sido mais apropriado Kant ter chamado à sua “revolução”, ptolomaica e não coperniciana, pois na formulação heliocêntrica, o observador, i.e., o homem, deixa de ser o centro do universo.

Assim, para Kant, cessam os dois limites ao conhecimento: a totalidade do que existe, inclua ou não Deus, almas, anjos, etc., e aquilo que nós conseguimos apreender.
Na opinião de Kant, para nós apenas existe o que temos possibilidade de experimentar. Não temos qualquer modo de saber se tudo o resto existe ou não.

Uma fotografia não é ela própria a cena fotografada15. Por outro lado, a imagem de uma pessoa numa fotografia não é a pessoa em si. Sobre a pessoa em si, Kant afirma que não se pode ter a certeza de que ela exista. Pode existir ou não. Kant simplesmente afirma: “Não sei!”

A estas “coisas em si”, que não podemos conhecer, das quais nada podemos dizer, Kant chama os númenos.
À sua interacção com os nossos sistemas de detecção, Kant chama os fenómenos ou “aparições”.


Decorrente da interacção com os nossos sistemas de detecção e o nosso cérebro, a partir dos fenómenos, nós construímos as imagens. Nada sabemos dos númenos, nem sequer podemos supor que tenham qualquer relação com os fenómenos ou com as imagens que deles elaboramos. Eles fazem parte de uma terra incógnita, transcendente, o mundo numenal. Nada nos garante que o animal às manchas brancas e pretas, que come erva e dá leite, que muge de vez em quando, seja realmente aquilo que temos por uma vaca.



FENOMENOLOGIA

Então se nós só lidamos com fenómenos, i.e., com aparências, desconhecendo de todo a sua origem ou sequer qual a conexão entre os númenos e os fenómenos, se é que existe alguma, como pode a ciência, para Kant fenomenologia ou estudo dos fenómenos, ser universalmente válida? Segundo ele, porque a formatação da nossa mente é universal, ou seja, todas as mentes humanas funcionam do mesmo modo. As estruturas de percepção e da razão são universais.

Ciência, no fundo, é aquilo que convence igualmente todos os homens, corresponda ou não à realidade. A única realidade é a universalidade da mente humana e não aquilo que está para além dela, sejam os objectos em si, seja o mundo espiritual. Não existe nenhuma entidade que nos garanta a veracidade dos nossos conhecimentos. A estrutura do conhecimento humano é a autoridade máxima para garantir a validade do conhecimento, mas desconhece-se o tipo de ligação, se existir, com a realidade em si16. De certa forma, é como se tudo se passasse sempre dentro da nossa cabeça, como no filme Matrix.

Mesmo de entre aquilo que se pode conhecer, Kant altera a natureza do conhecimento, ao dizer que uma imagem pode ser imagem de um objecto ou pode ser ela mesma objecto. Heidegger adopta o seu conceito e desenvolve-o na chamada problemática do “ser aí”, a Dasein. Heidegger sublinha que Kant afirmava que “a coisa em si” não é diferente da aparência, apenas a mesma coisa vista a uma luz diferente. A “coisa em si” não é separável da aparência, nem da consciência finita. De certa forma, significa afirmar que as coisas não existem para além do observador, apenas dependem de quem observa. Portanto, só existem imagens, não objectos17.


PROBLEMAS POR SOLUCIONAR

1 - A definição do conceito de presença (já explicado acima).
2 - O problema das caixas chinesas- o problema fenoménico da doutrina de Kant.
3 - O problema do intelecto exclusivamente discursivo ou conceptual.
4 - O problema do espelho.
5 - O conceito do sujeito objecto.
6 - O problema decorrente de estabelecer o limite da mente humana.
7 - O conceito de espaço e tempo.
8 - O problema dos juízos sintéticos a priori.




Trataremos destes dois últimos a propósito da Crítica da Razão Pura. Já considerámos atrás o primeiro. Vamos considerar neste capítulo, os restantes.



- Comecemos por O PROBLEMA DAS CAIXAS CHINESAS:

Suponhamos que um metafísico discute com um neo-kanteano. Um neo-kanteano diz: “Você acredita nas coisas “em si”, mas isso apenas está dentro da sua cabeça, é um preconceito. Por meio do que recolhe pelos seus sentidos e interpreta pela razão, o senhor apenas formula imagens de algo que desconhece.”

Suponhamos que o metafísico lhe responde: “A mim pareceu-me que o senhor formulou uma argumentação de ordem fenoménica, mas como eu não tenho quaisquer condições de saber verdadeiramente o que o senhor disse em primeiro lugar, uma vez que só elaborei uma imagem mental que um fenómeno provocou na minha membrana do tímpano, ao fazer vibrar o ar, e que resultou da transmissão ao cérebro de um sinal eléctrico, não estou seguro do teor da sua argumentação.”

Ao que o neo-kanteano terá que admitir não poder responder, uma vez que não conhece verdadeiramente a mensagem em si que o metafísico lhe respondeu. Ou então dará uma resposta apenas baseada na imagem que elaborou da resposta do seu interlocutor, e assim sucessiva e infinitamente. É um poço sem fundo. Uma supressão da progressão do pensamento. Um mundo em que a única certeza é a incerteza. Em vez de falarmos de conhecimento estamos a falar de suposições em cascata. O único conhecimento é o de que não podemos conhecer. Estamos a bater à porta da Desconstrução18.



- Tratemos agora de O PROBLEMA DE O INTELECTO HUMANO NÃO PODER SER INTUITIVO, mas apenas discursivo, o que, como vimos atrás, exclui a possibilidade do conhecimento de Deus19Júlio Esteves, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, RJ, Brasil, faz deste problema uma exposição notável20:



Kant caracteriza a aquisição do conhecimento humano em dois movimentos: da percepção sensível resulta a representação do objecto; do entendimento resulta o reconhecimento da representação do objecto, categorizando-a. No primeiro movimento vemos, no segundo movimento identificamos.

Como diz Kant, “sem sensibilidade, nenhum objecto nos seria dado; sem entendimento, nenhum objecto seria pensado.”

Por exemplo, não basta ver uma grande extensão de água azul-esverdeada, eu tenho que reconhecer que aquilo é compatível com “mar”. 
Kant diz que este intelecto discursivo ou conceptual é o único presente no ser humano e que lhe é exclusivo. É o intelecto do ser racional finito. Nele existe uma distinção epistemológica entre sensibilidade (os cinco sentidos) e entendimento. O conhecimento é efectuado pela participação de ambas. Portanto nós trabalhamos não com objectos mas com imagens.

Daí Kant fazer uma distinção lógico-ontológica entre possibilidade e realidade. O nosso conhecimento não é real, porque não trata com objectos, mas fenoménico, o possível, uma vez que trata com imagens e encerra em si um certo grau de incerteza. E Kant afirma que esta distinção entre realidade e possibilidade não tem nada a ver com as coisas, mas sim com a constituição particular do nosso sistema de entendimento.



Agora vejamos o que é um intelecto intuitivo, do qual o ser humano não é portador, (segundo a afirmação dogmática de Kant), porque caracteriza um arquétipo criador, i.e., Deus (caso exista):

O objecto não pré-existe ao acto do conhecimento, uma vez que foi concebido por aquele que conhece. Nesse sentido, o ser racional infinito só tem conceitos ou pensamento de objectos reais, pois o conhecimento traz imediatamente à existência o objecto conhecido, uma vez que o cria. Ele é a fonte de toda a realidade. E, neste caso, não existe distinção lógico-ontológica entre possibilidade e realidade.


Esta concepção de Kant é completamente falsa!


Deus tem que poder pensar determinadas coisas como meramente possíveis. Para criar, tem que ter um acto de vontade, um acto de discernimento de que é bom, de que faz sentido, de que há mais razões para criar do que para não criar. Deus não está obrigado a criar, a tornar real, tudo o que concebe, pois Ele é inteiramente livre. Logo, a conclusão de Kant de que a distinção entre possibilidade e realidade das coisas se funda na nossa situação particular, está errada, pois ela é válida mesmo para o Ser absoluto21.

Quer o ser racional finito, i.e., o Homem, quer o ser racional infinito, i.e., Deus, possuem a distinção entre possibilidade e realidade, de outro modo teríamos que concluir que Deus julga existentes todas as criaturas possíveis, o que é absurdo!

Portanto a distinção lógico-ontológica entre possibilidade e realidade não se funda no sujeito racional finito, mas nas coisas mesmas, nas suas essências. Uma vez caída a diferença entre os dois intelectos quanto à distinção lógico-ontológica, cai também (uma vez que foi Kant quem estabeleceu o paralelo) a distinção epistemológica (do modo como obtemos o conhecimento).



O que faz com que alguns conceitos nos apareçam como meras possibilidades, o que faz com que as intuições não nos dêem a conhecer algo como um objecto, não é nenhuma deficiência em nós mesmos, mas sim nos objectos conhecidos. 
Kant reconhece isso quando aponta o caso em que a nossa faculdade do conhecimento se ocupa com objectos dos sentidos - e neste caso “a razão aceita algo, o fundamento original, Urgrund, que existe incondicionado, no qual possibilidade e realidade não devem ser distinguidas.”

Ou seja, a nossa faculdade de conhecimento encontra-se condicionada porque se ocupa com objectos dos sentidos, porque para conhecer objectos dos sentidos tem que se adequar a eles. Mas, por consequência, se a nossa faculdade de conhecimento não se ocupasse com objectos dos sentidos, mas sim com objectos inteligíveis, poder-se-ia adequar perfeitamente a eles, fundindo possibilidade e realidade, conceito e intuição, num único acto de intuição intelectual.

Quer a referência de Kant ao Urgrund, quer este conceito de a possibilidade já incluir a realidade do objecto, remetem para a ideia de Deus e para o argumento ontológico de Santo Anselmo. Nada contudo nos indica que a intuição intelectual teria que estar reduzida a um único objecto. Concebível num caso, ela pode alargar-se, incluindo objectos semelhantes, como as ideias eternas, imutáveis e necessárias de Platão.



Concluindo, a sensibilidade decorre da natureza do objecto que a afecta e não é uma decorrência intrínseca do sujeito cognoscente e da sua capacidade cognitiva. É preciso ser dotado de sensibilidade para se ser afectado por objectos sensíveis. Isso não exclui a possibilidade de o nosso entendimento ser afectado por objectos inteligíveis, adequados à sua natureza.


“Uma coisa é dizer que Deus, se existe, só pode possuir um intelecto intuitivo, outra coisa é inferir daí, que todo e qualquer intelecto intuitivo concebível só pode ser propriedade do Ser divino ou criador.”


- Agora consideremos O PROBLEMA DO ESPELHO, que é querido a Olavo de Carvalho, e que passamos a expor aqui a partir de uma aula sua16:


O problema do espelho demonstra-nos a relação entre o objecto, o fenómeno, o sistema de percepção/entendimento e a imagem. Kant, como sabemos, diz que nada sabemos do objecto “em si” que designa por númeno, nem sequer se tem qualquer relação com a imagem. Portanto, dele nada sabemos. Agora imaginemo-nos em frente a um espelho. Nós somos o objecto, provocamos um fenómeno quando nos aproximamos do espelho; este, como sistema de detecção, provoca o aparecimento de uma imagem.

Pode a imagem aparecer diferente consoante o sistema de detecção? Pode! Há espelhos que distorcem, outros diminuem, outros ampliam. A imagem perde totalmente a conexão com um objecto, i.e., pessoas vestidas aparecem nuas ou homens com barba aparecem com a barba feita? Não! Quando nos movimentamos a imagem permanece parada e quando estamos parados a imagem movimenta-se? Não! Portanto, a imagem guarda uma relação estreita com o objecto.


Outro exemplo: quando um réu é presente a tribunal e se analisa a prova de um crime, que a polícia de investigação apurou, esta prova, seja considerada suficiente ou não, foi apurada com a preocupação de ter uma relação estreita com o crime ou foi apurada de forma estocástica? A polícia segue um método de recolha de prova, partindo do princípio de que indícios se correlacionam com o crime ou faz uma recolha ao acaso, de tudo o que lhe apetece, sem fio condutor? Quando Georges Simenon, Agatha Christie, GK Chesterton ou Conan Doyle, nos apresentam os seus detectives em acção, eles partem do princípio, dentro da história, de que o crime realmente ocorreu ou andam a recolher indícios de algo que não ocorreu? E os indícios relacionam-se com a ocorrência do crime ou não guardam com ele nenhuma conexão?


Bom, nós somos investigadores na nossa vida, no nosso mundo. Desde o nosso nascimento. Entramos para o palco, acendem-se as luzes e nós começamos a nossa peça à frente de todos. Recolhemos e interpretamos indícios. Decerto que o nosso é um mundo fenoménico, decerto que o apreendemos com os sentidos e com o entendimento. Será lícito deduzir que estas imagens não guardam conexão com o que realmente acontece? Que a nossa mulher, os nossos pais, os nossos filhos não são reais? 

Decerto que não nos lembramos de nascer, mas pela experiência de outros, faz sentido que tenhamos nascido. É verdade que não podemos fazer o experimentalismo da nossa morte, mas intuímos, com absoluta certeza, que vamos morrer. E, do nascimento à morte, existe uma ordem que faz sentido. Como pensar que estas apreensões não guardam relação estreita com o que realmente acontece?


Porque é que aquilo que eu sei de uma coisa não deve corresponder a essa coisa? Porque é que o objecto gera em mim informação não consistente com o objecto? Indicar o que sabemos das coisas como fenómenos é dizer que o objecto - o númeno - é tudo aquilo que dele não se conhece, pois não guarda relação com a imagem que formamos.


O CONCEITO DE SUJEITO OBJECTO  também o retirámos de Olavo de Carvalho16:


Kant refere que nada conhecemos do objecto, “da coisa em si”. Nesta afirmação, ele parte da acepção de que o sujeito é sempre sujeito e nunca objecto. Mas quando eu penso em mim - “eu tenho frio”-, eu torno-me objecto do meu próprio sujeito. Eu posso dizer que não posso conhecer as outras pessoas em si, mas então também não é possível conhecer “o eu em mim”. Eu próprio sou considerado desconhecido “em si” para os outros. As diversas percepções dependem das coisas como sujeito, mas também como objecto. O objecto absoluto, que só emite informação, e o sujeito absoluto, que só recebe informação, não existem! 

Se eu não posso conhecer “o eu em mim”, sou tão real ou irreal como os objectos. Sou também apenas um fenómeno. Pelo facto de eu não me conhecer totalmente - ninguém sequer se vê totalmente - isso significa que eu, provavelmente, não existo! Como pode um fenómeno ser sujeito, e como pode um fenómeno ter uma estrutura universalmente válida? Tudo o que Kant fez para analisar a estrutura de percepção também era fenoménico!

“É um faz de conta que eu não estou aqui.” Olavo de Carvalho.

“Se eu sei, eu sei que sei. E se eu sei que sei, eu sei que sei que sei.” 
Kant diz que não se pode imaginar o infinito, mas parece bastante óbvio que ele inventou um sistema infinito de pensamento, só que para dentro!



- Finalmente, o problema decorrente de estabelecer O LIMITE DO CONHECIMENTO SEGURO DA MENTE HUMANA:


O seu propósito claro e a priori foi o de bloquear todo o conhecimento de ordem metafísica para sempre. No entanto, este propósito imediatamente revela três incongruências:

A primeira é a de que dificilmente uma mente humana tem jurisdição sobre todas as mentes humanas. Antes, ela reflecte um modo particular, determinado cultural e historicamente, de analisar uma dada questão.

A segunda é que face a qualquer limite, um ser humano sempre se interroga sobre o que está para além desse limite. Pelo facto de erguermos uma vedação, não significa que o campo do vizinho não existe; pelo facto de existir uma linha férrea, não significa que não existam coisas a ladear os carris. Uma coisa finita é fácil de imaginar. A totalidade de energia e matéria em expansão desde o Big Bang, também. Mas um universo finito não é mais fácil de conceber do que um universo infinito.

A terceira é a de que Kant está tomado pela motivação de combater a concepção racionalista, deísta, de que o homem tem todo o conhecimento dentro de si, basta aflorá-lo - e esse é o grande mérito de Kant, a sua chamada revolução coperniciana - mas ele próprio confessa ter apreendido “uma grande luz” em 176922, o que não parece muito congruente com quem não admite o conhecimento intuitivo no ser humano.


António Campos

Descarregar PDF: https://docs.google.com/file/d/0BwCFS_WLZxTgNXY4ZVZHX0RBaDg/edit



9 I. Kant, Religião só Dentro dos Limites da Razão, 1793

10 Os teólogos católicos e as Escrituras sempre expressaram que Deus está presente em toda a parte, o que inclui o Inferno e que a recíproca não é verdadeira. Mas aqui o que está em causa não é se se admite a existência de Deus ou do demónio, o que aqui está em causa é a definição do conceito do ser, se existe possibilidade de uma oposição dialéctica entre dois seres antagónicos relativamente a todas as suas qualidades e, como se demonstrou, tal não é possível. Não se trata aqui de uma afirmação de fé, trata-se de uma formulação lógica filosófica que respeite o princípio da não contradição. Como vemos, para Kant a presença/ausência é uma dialéctica, um maniqueísmo, mas ele comete um erro que contamina todo o restante raciocínio.

11 Os contemporâneos de Newton (1642-1727) concluíram erradamente que o processo científico estava completamente esclarecido. Daí em diante, qualquer descoberta científica apenas se somaria às anteriores, dentro do edifício mental formulado por Isaac Newton. A teoria da relatividade de Einstein e a teoria quântica, como veremos a propósito da crítica de Karl Popper, desmentiram completamente esta convicção.

12 Para Lineu (1707-1778), a história da natureza é mais antiga do que sugerido pela cronologia bíblica. Como sabemos, com a Reforma e a Sola scriptura passou a existir uma interpretação literal da bíblia, que dispensa intermediários. Com a Reforma ignora-se o postulado de São Tomás de Aquino que expressa que se algo na bíblia vai contra a ciência e a razão, então o sentido que colhemos não é correcto e deve estar expresso um sentido metafórico. Ainda hoje existem várias confissões protestantes que lutam, na América, para que se ensine nas escolas da comunidade que o mundo tem seis mil anos. Dizia Chesterton que só quando a bíblia foi distribuída profusamente é que ela começou a ser tomada literalmente.




13 Revolução Coperniciana de Kant: Kant cria um cisma entre o homem e a sua consciência, entre o sujeito e o objecto do conhecimento. A consciência deixa de ser algo de inato ou transcendente e também de empírico (tornar-se consciente deixa de significar adaptar-se ao objecto em si, visto que tal não é possível).


Kant tenta provar que quer os inatistas (os racionalistas, que consideram certas ideias inatas na alma) quer os empiristas estavam errados. Ou seja, os conteúdos do conhecimento não são inatos, nem são adquiridos pela experiência. Kant postula, que a razão é inata, mas é uma estrutura vazia e sem conteúdo, que não depende da experiência para existir. A razão fornece a forma (continente) do conhecimento e a matéria (conteúdo) é fornecida pela experiência, a imaginação. Desta maneira, a estrutura da razão é inata e universal, enquanto os conteúdos são empíricos, obtidos pela experiência. Baseado nestes pressupostos, Kant afirma, que o conhecimento é racional e verdadeiro.

 
14 Reale G., Antiseri D., História da Filosofia, vol. II, cap. IV, pp. 358, Paulus Editora, São Paulo, 2005.

15 Acontece que uma fotografia tem um limiar de detecção, por exemplo, não é habitual observar os mosquitos em brochuras de paragens paradisíacas, e isso não significa que não existam, mas Kant recusa considerar este assunto como racional e empurra-o para um mundo virtual, o mundo numenal. Se não existe no nosso conhecimento, então não existe.
Hoje diríamos, como Taft, "se passou nos media aconteceu, se aconteceu mas não passou nos media, então não aconteceu".

16 O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho tem uma interessantíssima aula sobre Kant onde precisamente desmonta esta ilusão.

17 Segundo o filósofo, não se pode conhecer a realidade das coisas e do mundo, o que ele chama de númeno, “a coisa em si”. A razão humana, só pode conhecer aquilo que recebe as formas (cor, tamanho, etc.) e as categorias (elementos que organizam o conhecimento) do sujeito do conhecimento, isto é, de cada um de nós. A realidade, portanto, não está nas coisas (já que não as pode conhecer em última análise), mas em nós. Assim, vê-se o mundo “filtrado e processado” pela nossa razão, depois que as percepções passaram pelas categorias. A realidade é sempre e apenas subjectiva porque depende de cada um de nós.

18 Agora suponhamos a teoria de Kant sobre os limites do conhecimento humano: como podemos estar certos de que aquilo de que formulamos uma imagem, relativamente ao que Kant escreveu, corresponde exactamente ao que Kant escreveu? Como podemos estar certos do objecto que é a Crítica da Razão Pura? Que fenómenos poderá provocar esse objecto nos nossos sentidos que nos leva a formar uma imagem de interpretação cognitiva na nossa mente por forma a estarmos seguros de que a coisa em si, Crítica da Razão Pura, que Kant escreveu é a imagem que formamos dela? Nós não temos qualquer meio de saber ao certo aquilo que Kant realmente escreveu, nós só formamos uma imagem daquilo que ele escreveu. Trata-se do mesmo problema. O suicídio do pensamento.

19 I. Kant, Estética Transcendental, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, 4ª ed., 2001.

20 Júlio Esteves, Kant e a Possibilidade de Intuição Intelectual Para Seres Racionais Finitos. O Que Nos Faz Pensar, nº19, 2006.

21 Étienne Gilson, L´Être et L’Éssence, Librairie Philosophique J. Vrin, Paris, 1994.

22 Reale G, Antiseri D. História da Filosofia, vol. 4, De Spinoza a Kant, pp. 351, 2ª ed. 2007, Paulus, 2004, São Paulo.

8 comentários:

  1. PARABÉNSSSS.....EXCELENTE....PARA MIM QUE SOU INICIANTE,GOSTEI DEMAIS.

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  2. Caro Senhor,

    Agradeço as suas amáveis palavras.

    Dir-lhe-ei que também eu sou um principiante. Daí estes textos serem de principiantes para principiantes. Devo dizer que escrevi o texto que não encontrei.

    Como sou uma mente oriunda do mundo da ciência, sempre me foi difícil entender como alguns filósofos lidam apenas com conceitos ou abstracções e se dispensam de dar exemplos concretos. Nunca entendi se não percebem a matéria de facto ou se não se preocupam que alguém entenda o seu jargão.

    Como necessito de uma linguagem alegórica para entender o mundo conceptual, tive a preocupação de adicionar exemplos concretos para tornar o texto apreensível por todos, independentemente da respectiva formação de base.

    Adicionei sempre referências por uma questão de respeito pela verdade.

    Mais uma vez obrigado pelas suas amáveis palavras e votos de um Novo Ano muito feliz.

    Cumprimentos,

    António Campos

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    1. Eu nao li o texto ainda, caro Sr. Campos, mas sobre os "exemplos" digo o seguinte: em geral, quanto mais ontológico e fundamental for o tema, maior a chance de errarmos ao procurar analogias corretas. E muitas vezes os exemplos confirmam o conceito apenas por mera subdeterminacao, ou seja, algo como petição de princípio. Mas em todo caso, é um hábito honesto procurar exemplos, embora nem sempre seja oportuno e metódico interromper a abstração por causa deles. Além disso deve se distinguir entre exemplos retóricos e exemplos que envolvem a própria tentativa de argumentação, cada um provocando erros diferentes. Como faz um tempinho que queria escrever sobre isso, aproveito o comentário!


      cumprimentos de Salzburg,

      http://pseudoacademicus.blogspot.co.at

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  3. Caro Emanuel,

    Muito obrigado pelo seu comentário. Salzburgo é um local muito bonito; belo como a música do seu compositor mais notável.
    Concordo em geral com o que disse.
    Acredito que não é por conseguirmos exprimir completamente um conceito ou realidade abstratos que devamos abdicar de o tentar fazer.
    Giotto e outros pintores não abdicaram de pintar Deus; tal como não abdicou o escritor do livro de Ezequiel.
    O próprio Deus, segundo os cristãos, tentou sempre exprimir uma outra realidade pelo recurso a alegorias ou parábolas (exemplos da realidade concreta que projetam a razão para uma realidade abstrata, dificilmente exprimível).
    Edward Feser dá um exelente exemplo num artigo do seu blog quando fala da linguagem da transposição em C. S. Lewis.
    Dou alguns exemplos de Chesterton que exprimem melhor o que tento dizer:

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  4. 1 - "Sempre que um homem diz a outro, "Explica lá o que queres dizer", ele assume a infalibilidade da linguagem: i.e., ele assume que existe um esquema correcto de expressão verbal para todos os sentimentos e intenções do homem.

    Sempre que um homem diz a outro "defende o teu ponto de vista, luta por aquilo em que acreditas", ele assume a infalibilidade da linguagem: quer dizer, ele assume que o homem possui uma palavra para cada realidade na terra, no céu ou no inferno.

    Ele sabe que na alma humana existem cores mais desconcertantes, mais numerosas e mais inomináveis do que as cores de uma floresta outonal. Ele sabe que existem no mundo exterior à solta, crimes que nunca foram condenados e virtudes que nunca foram admiradas.
    E, no entanto, ele acredita sinceramente que tais coisas, cada qual no seu tom ou semi-tom, podem ser representadas nas suas misturas e agrupamentos, por um sistema de grunhidos e gritos histéricos."

    G. K. Chesterton, As Pinturas Alegóricas de Watts

    2 - "E, tal como na moral do Bem e do Mal, assim é com a sanidade mental e com a loucura.

    Existe um teste simples que separa a originalidade genuína, mesmo que perversa e desequilibrada, da mera inovação impertinente e bluff.

    O homem que pensa ter uma ideia vai sempre tentar explicar essa ideia. É charlatão aquele que diz ter uma ideia e afirma que ela é demasiado complexa para poder ser explicada.

    A primeira ideia pode até ser bastante outra ou só para especialistas; pode ser difícil de explicar a pessoas comuns. Mas se o homem fizer a tentativa de a explicar é porque algo ela contém.

    O homem honesto tenta sempre alcançar o inalcançável, descrever o indiscritível. O charlatão não só vive mergulhado no oculto, como recusa mesmo sair dele."

    Talvez esta distinção seja mais óbvia e divertida naquilo a que se chama arte, e nas pessoas chamadas Críticos de Arte.

    É óbvio que uma bela paisagem ou um rosto vivo podem apenas expressar num quadro metade da virtude do original autêntico. É igualmente óbvio que um pintor de paisagens expressa apenas metade da paisagem; um pintor de retratos apenas metade da pessoa; é uma sorte se expressarem tanto.

    E, é ainda mais óbvio que qualquer descrição literária das imagens só pode expressar metade delas; a metade menos importante.

    Ainda assim, algo expressa; o fio não se quebra, o fio que liga Deus com a Natureza, ou a Natureza com os homens, ou os homens com os críticos.

    A "Mona Lisa" foi, em alguns aspectos (não todos, imagino) aquilo que Deus quis dizer que ela fosse. A imagem de Leonardo foi, em alguns aspectos, como a senhora.

    E a rica descrição literária da imagem pintada, de Walter Pater, foi, em alguns aspectos, como a imagem.

    Assim, chegamos à conclusão consoladora que mesmo a literatura, em última instância, pode expressar algo que não seja a sua própria autocomiseração.

    Chesterton, O Guru, ILN 1926


    3 - "Quer a razão quer a fé nunca morrerão, porque o homem cessará se privado delas.
    Até o místico mais radical usa a razão, nem que seja para argumentar contra a razão.

    O céptico mais radical tem dogmas que lhe são peculiares; o que acontece é que ele não considera que sejam dogmas.

    A fé e a razão são, neste sentido, eternas.

    Mas como agora usamos as palavras como rótulos típicos da época e não ligadas à sua etimologia, i.e., ao seu real significado, quer a razão quer a fé nos parecem remotas e pitorescas.

    O que foi chamado "A Idade da Razão" sumiu tão completamente como o que foi chamado "A Idade da Fé".

    Anti-Religious Thought In The Eighteenth Century; "An Outline of Christianity : The Story of our Civilization", Vol. IV, Christianity and Modern Thought (1926).

    Cumprimentos cordiais de Coimbra,

    António

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