sábado, 30 de dezembro de 2017

Wittgenstein Para Principiantes – O Tractatus (1922): A lógica positivista e a linguagem como figuração





É uma ironia que um tratado de 75 páginas sobre linguagem, tenha começado com dois
equívocos linguísticos.1 O primeiro resulta da pobre tradução, crucial na comunicação do pensamento entre nações ou indivíduos linguisticamente distintos: o autor dominava mal o inglês; o tradutor era um teenager que dominava mal o alemão. O segundo resulta de uma Introdução ou Prefácio escrita por alguém (Bertrand Russell) que, nas palavras do próprio autor, não tinha compreendido o sentido do livro.2 A introdução de Russell resultou como imposição para a publicação do livro – na verdade espelhando o tipo de “negócios” ou “compromissos” que infectam as universidades modernas. Não é portanto surpreendente que Wittgenstein, tal como outros filósofos alemães, veja a sua obra analisada de forma muito distinta conforme os olhos de quem a analisa, ironicamente refletindo o objecto do seu trabalho: os equívocos da linguagem, a linguagem como meio público de comunicação do que é privado, a linguagem como parte do mundo.3 Sem compreender a mentalidade e a praxis do próprio escritor, é possível que seja inevitável o equívoco, sobretudo provocado pela introdução de Russell, uma vez que o leitor não é uma tábua rasa e tende a interpretar a obra de acordo com os seus próprios valores, como afirmava o próprio autor.

A linha que norteia o livro é o de utilizar os pressupostos da lógica positivista, da ciência, e aplicá-los ao uso da linguagem. Como consequência, traçar uma linha ou limite entre o que pode ser afirmado com certeza, deixando fora dessa linha tudo o resto (religião, ética, estética). Note-se que Wittgenstein não está a afirmar o mesmo que Hegel, quando afirma que o puro acredidato não é conhecimento ou que o intangível (o que não pode ser colocado em palavras) não existe. O que Wittgenstein afirma é que sempre se pode pensar de ambos os lados de um limite, mas, aplicando a lógica positivista, os limites do mundo são definidos por aquilo que se pode afirmar ou provar, ficando tudo o resto fora dos limites da linguagem. As consequências são claras no âmbito da religião: nem um cristão pode afirmar a Encarnação de Deus neste mundo, nem um ateu pode afirmar que o conteúdo religioso é falso:

"Sobre aquilo de que não podemos falar, o melhor é remetermo-nos ao silêncio".

1 - O mundo é a única coisa que importa. O mundo é constituído por factos, não por coisas.

Nota:

De acordo com a abordagem da física, o universo/mundo é a única fonte de factos. Facto aqui é tomado no sentido lógico, não no sentido espaço-tempo; por conseguinte, objectos não são factos. Encontram-se excluídos a religião, a ética e a estética.



2 – O que importa é o facto. O facto é constituído por unidades de facto.

Nota:

O mundo é a totalidade dos factos e não de coisas. O mundo é determinado pelos factos. A totalidade dos factos determina o que importa e o que não importa. O mundo é constituído por objectos que se encaixam uns nos outros para formar os “estados de coisas” que nos fornecem significado – por exemplo, “leão” e “sala” podem permitir o estado de coisas “o leão encontra-se na sala”. A realidade é espelhada ou pintada pela existência ou não existência destes estados de coisas, o que é determinado pela veracidade lógica (que se explica abaixo). A ciência trabalha com o significado e a linguagem precisa e estuda a existência ou não existência dos estados de coisas. A lógica apenas elimina contradições (este ser é um cão e não é um cão) e afirma tautologias (ou está sol ou não está sol). A primeira é sempre falsa; a segunda é sempre verdadeira, embora nada nos diga sobre a realidade – essa é a função da ciência e do senso comum. As contradições e as tautologias não são verdadeiras proposições porque não dizem nada, mas informam-nos sobre a verdadeira natureza da lógica.



3 – O pensamento é a pintura lógica dos factos.

Nota:

Wittgenstein usa a analogia entre uma pintura e a comunicação de uma mensagem, do pensamento à linguagem. A linguagem funciona em comunicação despertando imagens na mente. É um mecanismo semelhante à reconstituição de um crime. As proposições originam imagens de factos.

4 – O pensamento é a proposição significante.

Notas:

Um pensamento é uma proposição com um sentido. A totalidade das proposições é a linguagem. A linguagem é um pensamento disfarçado. No entanto, o pensamento e a linguagem devem possuir a mesma forma lógica ou a mesma pintura lógica. O que é uma “forma lógica”? Suponhamos o som ao vivo de uma sinfonia, o seu registo num gramofone ou o seu registo digital – como o seu resultado é o mesmo, partilham a mesma forma lógica que, no entanto, não pode ser representada; por outras palavras, um pensamento pode ser expresso por proposições, mas não pode ser mostrado. Do mesmo modo, uma pintura lógica informa-nos como as coisas são, porque partilha a forma lógica com a realidade.

Numa proposição, um pensamento encontra uma expressão que pode ser percebida pelos sentidos.4

Numa proposição, um nome é representativo de um objecto. Os objectos só podem ser nomeados.



5 – As proposições são funções veritativas das suas proposições elementares.

Nota: Não podemos pensar em nenhum objecto sem considerar a sua ligação com outros ou com a sua finalidade. Este “estar ligado” a um estado de coisas é condição necessária a que um objecto possa ser pensado.  Com as palavras acontece o mesmo (o nome é representativo de um objecto). As palavras adquirem o seu significado quando inseridas numa frase (proposição) e somente as frases podem ser consideradas verdadeiras ou falsas. Por exemplo, “cadeira” pode ter significados diferentes conforme a frase; pode significar um objecto onde nos sentamos, uma disciplina ou uma cátedra. Mas nada podemos dizer sobre a sua veracidade ou falsidade. Mas se dissermos, “está uma cadeira na casa de banho”, essa proposição pode ser verdadeira ou falsa.

Deste modo, existe uma correspondência entre o mundo real, o pensamento e a linguagem.

O que determina a veracidade ou falsidade das proposições é se a conexão das palavras na proposição é igual à conexão entre os objectos no mundo. Deve existir uma identidade entre a estrutura das coisas e a estrutura do pensamento. O que permite que a linguagem possa corresponder ao mundo (figure o mundo) é ambos possuirem a mesma forma lógica.5

No entanto tal não pode ser demonstrado, apenas mostrado. Algo que Chesterton também referiu sobre razão e fé: “Sabíamos que ao colocar a fé em questão acabaríamos por deitar a razão abaixo do seu trono. Ambas são processos demonstrativos que não podem ser demonstrados.”6

“Quando falamos sobre o mundo já estamos dentro da lógica. Para demonstrar a forma lógica, deveríamos poder-nos instalar com a proposição fora da lógica, i.e., fora do mundo. Teríamos que colocar-nos, como afirmavam os medievais, no ponto de vista de Deus, algo que é igualmente impossível, a menos que o próprio Deus no-lo revelasse.”1

6 – A fórmula geral de uma proposição veritativa é: [ p ¯ , ξ ¯ , N ( ξ ¯ ) ]. Esta é a forma geral de uma proposição.

Notas:

Um conectivo lógico é veritativo funcionalmente se o período final for uma função do valor veritativo das suas fases elementares. Por exemplo, consideremos o período: “A camélia é uma flor e a batata é um tubérculo.” A primeira frase é verdadeira porque a camélia é uma flor; a segunda frase é verdadeira porque a batata é um tubérculo. Portanto o período é uma proposição veritativa.

Contudo, nem sempre assim acontece em linguagem. Suponhamos que alguém diz: “O João diz que a Terra é plana, mas não acredita que ande um homem na Lua com um fardo às costas.” Então a primeira frase, “a Terra é plana”, é falsa; a segunda frase, “anda um homem na Lua com um fardo às costas”, também é falsa. No entanto, a introdução dos prefixos “João diz que” ou “não acredita”, altera o valor lógico do período resultante das duas frases, dando-lhe o valor de verdadeiro, mesmo que formado por duas frases de valor lógico falso. Neste caso, o conectivo lógico não é funcionalmente veritativo.

Daqui se deduz que uma proposição que comece como opinião de alguém é geralmente falsa. Este postulado junta mais exclusões à religião, à ética e à estética: a psicanálise, grande parte das teorias das chamadas ciências sociais e a especulação filosófica em geral. Foi por isso mesmo que Wittgenstein afirmou no final do Tractatus ter resolvido todos os problemas da filosofia.



7- Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen. "Sobre aquilo de que não podemos falar, o melhor é remetermo-nos ao silêncio".

Notas:

Fora das proposições da ciência natural, devemos manter-nos em silêncio. Ou seja, a filosofia apenas pode expressar proposições da ciência – é a expressão factual lógica das proposições. “A filosofia nada pode dizer sobre a forma lógica, porque a forma lógica não pode ser explicada, mas mostrada; e o que pode mostrado não pode ser dito.”

A totalidade do mundo e da linguagem é assunto do místico; à filosofia basta esclarecer a linguagem e ajudar à formulação de proposições claras.

O sentido ético tem que estar fora do mundo, porque tudo o que importa é acidental: o mundo não tem ordem, nem Ordenador; o mundo é acidental ou estocástico (novamente um postulado moderno). O que não é acidental, não pode estar dentro do mundo – as proposições da ética estão fora do mundo.

Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. O mundo e a vida são um.

Eu sou o meu mundo. Não existe tal coisa como o sujeito que pensa ou desenvolve ideias. Não existe "Eu". Não existe "Eu", porque eu não me posso pensar; a minha mente não pode ser o meu objecto.
Suponhamos que eu me olho ao espelho. “Eu” posso ver os meus olhos, mas posso ver o “Eu” que vê os meus olhos?
Suponhamos que eu digo: “Eu” vejo a minha mulher, mas posso ver o “Eu” que vê a minha mulher?
Posso separar um pensamento do “eu” pensante, sem ter que recorrer a um outro pensamento?
Portanto, não existe um “eu” que viva isolado no mundo, que veja e pense e confira sentido ao que vê e pensa – aqui a crítica ao método cartesiano de Descartes atinge o seu zénite. Pelo contrário, existe uma linguagem do pensamento que se inicia com “Eu”. Esse “eu” possui muitas experiências no mundo; é a minha experiência (a única verdade do solipsismo), mas isto não significa que esteja em minha posse, uma vez que não existe esse sujeito que a possua. Eu e o mundo coincidimos, no sentido em que o meu mundo, o mundo das minhas experiências é único.

Todas as proposições têm igual valor (e aqui o caminho da filosofia que segue a metodologia da ciência chega ao relativismo).



Com esta introdução ao Tractatus, abre-se um mundo novo na forma como vemos a linguagem. Por um lado, a linguagem não é algo que esteja fora do mundo, denominando-o apenas. A linguagem identifica-se com o mundo humano, na medida em que é expressão do próprio pensamento e não existe homem sem pensamento. A consciência de si e do mundo identifica-se com a linguagem. Deste modo, apenas considerando a existência humana, no princípio era o verbo. No entanto, encontra-se implícita uma outra noção: o universo é acidental e estocástico, se lhe aplicarmos a lógica positivista; não podemos afirmar ou negar a existência de um Ordenador ou Criador, porque tal está fora dos limites da linguagem e do mundo. Mas atenção, caso existisse um tal Ordenador, a sua vontade ou pensamento seria expresso pela linguagem. Deste modo, entende-se em linguagem religiosa (assunto para as Investigações Filosóficas, Blue Book e Culture and Value) a afirmação de São João: Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν, καὶ Θεός ἦν ὁ Λόγος, In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum.

Por outro lado, ficam expostos vários abusos de linguagem, sobretudo vindo daqueles que defendem a própria lógica positivista aplicada por Wittgenstein, mas não vislumbram as suas consequências e as descartam. Como exemplos, contam-se o uso da linguagem para se pronunciar contra a existência de Deus, a utilização de teorias não baseadas no método científico como linguagem científica, o que acontece muito no âmbito da psicologia e das ciências sociais, a utilização desmedida de “opinião”.
Como consequência da aplicação estrita dessa lógica positivista contam-se a exclusão de proposições éticas e estéticas e a inexistência do “eu”. Se a primeira mostra a insuficiência do método, uma vez que todo o homem faz juízos (razão por que o segundo Wittgenstein voltou à filosofia em 1929), a segunda é uma incisiva crítica a Descartes e ao seu racionalismo. Não é apenas a observação de que não existe um “eu” isolado pensante, mas também as afirmações de que os objectos só podem ser nomeados e a de que numa proposição o pensamento encontra uma expressão que pode ser percebida pelos sentidos. Os sentidos são a medida do mundo e são o próprio sujeito, não são instrumentos como o microscópio e o telescópio.  

Se se pode admitir que o Wittgenstein que conheceu Russell em Cambridge acreditava no valor em si deste método, é mais difícil de conceber que o místico Wittgenstein que regressou da guerra antes da publicação da obra tivesse a mesma convicção. Talvez por isso mesmo ele dissesse que o livro não era tanto um conteúdo, era mais uma escada para ajudar a pensar ou que a maioria das proposições nele descritas eram puro disparate. Parece óbvio tratar-se de uma clara demonstração do caminho onde leva a aplicação da lógica positivista e uma tentativa de separação das águas entre o que o lógico pode dizer e aquilo que deve calar.

A conjunção das suas duas proposições, a primeira, “O mundo é tudo o que importa”, com a última, "Daquilo de que não podemos falar, o melhor é remetermo-nos ao silêncio”, marca o desafio para pensar. A última proposição aponta para um mundo factual, mas a primeira, “o mundo é”, joga com o inefável e é uma premissa – aparentemente encontra-se aqui descrita a dualidade entre o que pode ser dito e o que apenas pode ser mostrado.

“Quanto mais o prego tiver entrado na cabeça, maior terá sido a sua utilidade; mas o que realmente importa é aquilo do qual só podemos permanecer em silêncio.”2 Wittgenstein calou-se pelo menos dez anos. Depois falou com mestria e deixou-nos a sua obra-prima.





António Campos



1 Tractatus Logico-Philosophicus, Kegan Paul, Trench, Trubner & CO., LTD., London, 1922. https://www.gutenberg.org/files/5740/5740-pdf.pdf.

2 John Heaton and Judy Groves. Wittgenstein for Beginners. Penguin Books, London. ISBN 1 874166 17 X.

3 Biletzki, Anat and Matar, Anat, "Ludwig Wittgenstein", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2016 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <https://plato.stanford.edu/archives/fall2016/entries/wittgenstein/>.

4 Tom Martin (University of Nebraska), American Chesterton Society, 24th G. K. Chesterton Conference, A Century of Heretics, St. Thomas University, St. Paul, Minnesota, 2005. Disponível no site da ACS.

5 Josué Cândido da Silva, Pedagogia & Comunicação, wittgenstein-e-a-figuracao-do-mundo.

6 Chesterton, Ortodoxia. Chesterton, Catholic Church and Conversion.


Notas finais sobre as alíneas 5 e 6 por David Pansera:

A filosofia deste "primeiro Wittgenstein", busca determinar a natureza em si da representação e daquilo que é representado, o mundo. Ele faz isso estabelecendo a "essência" da proposição. Ele identifica vários tipos de proposições que se diferenciam quanto à sua forma lógica. Entretanto, tais formas possíveis possuem algo em comum que é determinado a priori. Dada uma linguagem, as regras da sintaxe lógica dessa linguagem permitem que, ao juntarmos palavras, formemos proposições. A forma proposicional geral é a essência da proposição, isto é, as condições necessárias e suficientes para que algo seja uma proposição em qualquer linguagem, qualquer notação.

A alínea 5 diz respeito a certos "axiomas"; as proposições elementares de uma linguagem. Uma proposição elementar é um proposição de verdade de si mesma. Isso é a tese da extensionalidade de Wittgenstein.

Na alínea 6, Wittgenstein equaciona a forma proposicional usando a tese da extensionalidade. Na fórmula simplificada [a, x, N(x)], está especificada uma série de proposições. "a" é uma proposição inicial, x é um conjunto de proposições e N(x) é a negação de todas as proposições. Wittgenstein, dessa forma, admite o que é chamado de construtivismo lógico. Só é possível uma lógica que possa ser construída a partir de iterações de processos elementares. Isso entra em conflito com a existência de vários objetos da matemática moderna, uma vez que não podem ser obtidos através de métodos construtivistas.

O segundo Wittgenstein, em Investigações Filosóficas, negou a tese da extensionalidade, dizendo que ela caracteriza o cálculo proposicional e não a linguagem comum. Com a autocrítica que Wittgenstein faz ao Tratactus, é possível demonstrar que o Tratactus está, de uma forma confusa, dizendo que uma proposição é qualquer coisa que seja verdadeira ou falsa.